Professor José Manuel de Paiva Simões - Oração da Sapiência - Amigos da Jeropiga de Moinhos e Arredores (II Capítulo da Conf. Amigos da Jeropiga de Moinhos e Arredores) - 31.03.2007
ARTIGOS

II CAPÍTULO DA CONFRARIA DOS AMIGOS DA JEROPIGA DE MOINHOS E ARREDORES

31 DE MARÇO DE 2007

 

___ORAÇÃO DA SAPIÊNCIA___

 

 

            Exma. Senhora Presidente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo, Drª. Fátima Ramos, Exmo. Senhor Presidente da Junta de Freguesia, Exmo. Grão Mestre da Confraria dos Amigos da Geropiga de Moinhos e Arredores, Digníssimas Confrarias presentes, Irmãos, comunicação Social, senhoras e senhores,

 

Confraria é uma associação de amigos que partilham um interesse comum em torno da sua organização, os quais se reúnem para o celebrar em festas de cariz popular. Concomitantemente, confraria exorta à solidariedade, à amizade, à fraternidade, à partilha, à união.

 

Tal é o propósito intrínseco da Confraria da Jeropiga de Moinhos e Arredores que no seu logotipo representam o cacho de uvas, evocando a matéria prima que dá o produto que promovem, o qual é fruto da terra e do trabalho do homem, a partir da qual produz a Jeropiga, produto final que a Confraria tem como objectivo enaltecer.

 

A videira é uma trepadeira da família das vitáceas, com tronco retorcido, ramos flexíveis, folhas grandes e repartidas em cinco lóbulos pontiagudos, flores esverdeadas em ramos, cujo fruto é a uva a partir da qual se produz o vinho.

 

O cultivo da videira para a produção de vinho é uma das actividades mais antigas da civilização sem contudo se poder indicar com precisão as sua origens. Há todavia indícios da presença da videira no mundo desde a mais remota antiguidade, tudo levando a crer que precedeu o próprio homem. Há cientistas que datam o seu aparecimento nos alvores do período terciário, o mesmo se podendo dizer da transformação da uva em vinho.

Igualmente verosímil é que, e dado o seu carácter de cultura essencialmente colonizadora, a vinha é o prelúdio das grandes civilizações, sendo comum aceitar-se que com a introdução da vinha o homem se libertou da vida nómada e incerta no seio da tribo e passou a um tipo de vida mais estável.

 

Não restam também quaisquer dúvidas de que o vinho foi conhecido por todos os povos da antiguidade, desde a Índia até à Península Ibérica. Os Hebreus cultivaram o vinho, bem como os Gregos.

Foram porém os Romanos que apuraram a técnica da produção do vinho e lhe deram significativo impulso.

Admite-se, contudo, que a viticultura propriamente dita tenha tido o seu ponto de partida na Ásia Meridional, donde se estendeu à Ásia Central,à Europa e ao Extremo Oriente.

Curiosamente, fruto das transformações sociais e religiosas, a cultura da vinha foi abandonada na China e no Japão e em grande parte nos países muçulmanos.

 

Na antiga Ibéria a introdução da videira remontará ao tempo dos Gregos quando estes estabeleceram as suas colónias por alturas do século VII a. C.

Contudo, nos primórdios da Lusitânia, a vinha começou por ocupar apenas as terras junto à foz do Tejo e só mais tarde se terá estendido a outras regiões do país.

Não estando ainda bem averiguado quando se terão iniciado as exportações dos vinhos portugueses, afirmam alguns cronistas que este movimento comercial foi iniciado no tempo de D. Fernando (1367-1383).

Viria a ser no século XVIII que o Marquês de Pombal delimitou a região do vinho do Porto e promoveu a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.

 

            E quando terá surgido a Jeropiga nos territórios que mais tarde seriam Portugal? Com os Gregos, com os Romanos? Teria sido anteriormente? Com certeza que a produção da Jeropiga andará de mãos dadas com a produção do vinho.

 

A necessidade, a argúcia, a sageza, a arte e o engenho do homem ,que do pouco sempre soube fazer o necessário para a sua subsistência, terão sido os ingredientes para a descoberta da fórmula mágica que hoje a Confraria dos Moinhos defende e enaltece aristocraticamente.

 

Mas deverá escrever-se Geropiga com um “G”ou Jeropiga com um “J”? Antes de mais, sem delongas ou cometimentos destrembelhados que têm apaixonado alguns espíritos jurássicos, digo; eu prefiro cheio, bem cheio…!

 

Ainda assim, e segundo atesta o "Vocabulário da Língua Portuguesa" de Rebelo Gonçalves, escreve-se Jeropiga, com um “J”. O termo é, segundo o "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa" de José Pedro Machado, de "origem obscura".

 

Porém, ao invés  deste autor, Geropiga, grafada com “G” existe (ou pelo menos existiu...) de acordo com Camilo Castelo Branco no seu "Vinho do Porto", que se debruça precisamente sobre esta polémica.

 

Nesta moldura etimológica, onde a veia sócio-cultural é muito justamente considerável, e segundo o "Dicionário de Português de Constâncio", Jeropiga com um “J” seria uma bebida medicinal, ajuda ou clister, enquanto Geropiga grafada com um “G” era o licor produzido a partir do mosto (pag. 27, ed. Frenesi).

 

 

 

 

Por falar em medicinal conta-se que o Ti Zé Moleiro foi ao médico e este perguntou-lhe:

- Diga lá o seu nome?

- Zé Moleiro dos Santos senhor Dr.

- Idade?

- 68 Anos.

- O Senhor bebe?

- Ó senhor Doutor vou aceitar um copinho de Geropiga mas é só para o acompanhar!

 

 

            Aliás, e a talho de foice, é curioso destacar que Camilo Castelo Branco (século XIX) um apaixonado pela Geropiga, enquanto os seus comparsas bebiam a meio da manhã um copo de cachaça no Nicola, como era hábito na época, ele dizia:

            “Não troco um bom copo de Jeropiga por nada deste mundo…”

O escritor fazia alusão clara a que só no outro mundo poderá haver algo melhor. Daí o epíteto de DIVINAL.

 

            Se considerarmos que em Lisboa não se produziria Geropiga. Se nos ativermos a que a Geropoiga consumida em Lisboa era levada da província pelas pessoas que para lá iam trabalhar! Se considerarmos que noutros tempos havia muitos moinhenses a labutar em Lisboa, fácil é concluir que a Geropiga que Camilo Castelo Branco degustava na Capital seria provavelmente produzida nos Moinhos.

 

 

            Relatam os calhamaços que era comum ver o poeta boémio, Manuel Maria Barbosa du Bocage, (séculos XVIII e XIX), a beberricar copos de Jeropiga nos botequins em Setúbal. Dizia que a Geropiga lhe aquecia o ventre e como o ventre estava próximo dos órgãos genitais se encontrava sempre pronto para lhes dar uso.

 

É singularmente extraordinário como rebuscando na penumbra dos séculos, afastando o pó dos livros, podemos ver com mais nitidez, encontramos a verdade, a história, a tradição e a lenda. Enfim, a génese de um povo e a sua alma, pontos cardeais que sustentam a designação da Confraria da Geropiga, enquanto licor produzido a partir do mosto.


            Geropiga é, então, uma bebida com elevado teor alcoólico, obtida a partir do mosto de uvas brancas ou tintas, a que se junta aguardente de vinho, ”conforme o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa.

            Já o Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 8ª Edição, afirma que Jeropiga é uma “Bebida feita de mosto e aguardente; vinho a que se suspendeu a fermentação por meio da aguardente; vinho abafado”.

 

Não obstante, continua a ser um mister, um ritual quase sagrado fazer Jeropiga. Trata-se de um acontecimento maior pois requer manusear com sabedoria os componentes, as proporções, e, atente-se, apurar e estabelecer com precisão médica e científica o grau etílico dos produtos a manipular, não sendo desprezível o recipiente onde o milagre se opera.        

 

Só tendo em atenção todos estes considerandos é possível produzir Jeropiga à boa maneira tradicional dos Moinhos e Arredores, porque genuína, a pura, a mítica, aquela que tem qualidade para ser apelidada de MAGNÍFICA.


            Num exercício de fácil mas profunda abstracção proponho que percorramos algumas fases antes da Jeropiga IMBATÍVEL chegar aos nossos copos, à nossa mesa, às nossas gargantas, interpretando o fascínio de cada momento.

 

            Os pássaros chilreiam alegremente pelo espaço anunciando a sua liberdade aos quatro ventos. Ali, um melro empoleirado numa parreira afirma a força do seu estridente trinado. Acolá, pousado numa videira ramalhuda, o pintassilgo espalha os seus dotes de tenor. Numa oliveira, ao canto, um rouxinol pintalgado inicia um vou picado sobre um cacho de uvas Fernão Pires. É a Natureza na sua magnificência e esplendor que se expressa numa resposta maravilhosa aos braços do Criador. É nestes momentos que nos sentimos mais próximos do Céu, mais próximos de Deus...

            Temperadas pelo calor do astro rei, vivificadas com a descida da chuva pródiga, embaladas pelos mil sons na Natureza, as uvas vão amadurecendo, lenta e seguramente, oferecendo-se para a colheita que se aproxima.

 

            É tempo das vindimas. Toca a pôr os bois ao carro e vai de abalar para os campos. Rancho de homens e mulheres preparam-se para estabelecer com a natureza um cenário de rara beleza e tragédia. 

 

Num quadro de singular solenidade as tesouras descem implacáveis sobre a videira num compasso ritmado. Esta, rendida à colheita da mão humana, vê os cachos serem-lhe roubados um a um para serem aconchegados no fundo do cesto. É a generosidade no seu êxtase.

 

Num ritual alegre e folgazão, entoam-se cantigas que ressoam das gargantas maceradas pelo copo de vinho que é franqueado a espaços pelo patrão. Rostos vincados pelo trabalho árduo, mãos calejadas, dedos pegajosos pelo açúcar que se liberta dos bagos oferecem-se continuamente num vai vem frenético que só termina com o regresso a casa e às adegas.

 

Carros de madeira puxados por juntas de bois amarelos, daquelas que desafiaram o Manel Jeirinhas, aquele da nossa Escola Primária, dolentes e compassados, rompendo entre seixos num solavancar contínuo, carregam até às adegas familiares o precioso pecúlio.

 

Já nas adegas de terra batida, quase sempre situadas no piso térreo das casas campesinas, envelhecidas por Invernos que chegavam a durar três meses, vai de depositar as uvas na velha dorna de madeira de castanho para serem pisadas por pés amigos que magistralmente as sabem afagar num ritmar enérgico e místico.

 

Seguidamente, mãos sábias, esculpidas pelo trabalho aliviam o botoque e do balseiro jorra o mosto. Ao mosto fazem adicionar aguardente vínica rigorosamente seleccionada para o efeito para evitar que se inicie a fermentação e fazer com que a bebida fique com o seu travo suave e adocicado.

 

            Já no pipo de madeira, preferencialmente de carvalho pois dá-lhe um sabor especial, foi colocada previamente a rolha. O barril deve ficar hermeticamente fechado utilizando-se para o efeito sebo ou cera derretida para que fique completamente vedado e não se verifique a fermentação do mosto.

 

Neste cenário, onde o cheiro a mosto se cruza com o do chouriço assado que a Ti Preciosa trouxe ao marido, o aldeão circunspecto, agradece a prodigalidade da colheita e implora as graças de Deus rematando com o sinal da cruz.

 

Depois, depois é só esperar cerca de 3 a 4 meses para que a Jeropiga fique límpida e cristalina, completamente apurada e poder ser chamada de Jeropiga dos Moinhos.

 

            Assim, a Jeropiga dos Moinhos e Arredores é uma bebida tradicional de excelência. Para além do mais, revela-se um complemento calórico importante nas dietas alimentares, sendo regularmente consumida aos serões, à lareira ou nos populares magustos, acompanhando uma mão cheia de castanhas assadas.

 

            É uma iguaria de fabrico caseiro, artesanal que não se verga ao abandono dos campos e não sucumbe perante o crescimento das explorações vinícolas de características empresariais. Quem se dedica a produzir esta preciosidade finíssima certamente que terá uma relação privilegiada como o Criador!

 

            A propósito de qualidade dois compadres trocavam impressões:

 

            Dizia o Aristides para o Tónio Crica:

 

            “Ó compadre não há nada melhor do que um copo de Jeropiga”

            “Ai isso é que há compadre.”

“Vossemecê é mesmo teimoso. Já lhe disse que não há!

“Há sim senhor!”

“ Ai há? Então diga lá o quê é!”

            “Ó compadre, melhor que um copo de Jeropiga só se for uma garrafa de Jeropiga!”

É o povo, mais uma vez no seu esplendor!

 

 

            A Jeropiga é assim um sucedâneo do vinho completando-se mutuamente.

 

            Se “O vinho foi dado ao homem para acalmar suas fadigas!”,

se o

            “O vinho rejuvenesce os velhos, inspira os jovens, alivia os deprimidos do peso da suas preocupações.”

 

Então há que considerar que

            “A vida é curta demais para se beber má Jeropiga.”

 

            A Jeropiga, o precioso líquido pode ser consumida em múltiplas e nas mais diversas situações. Desde momentos típicos ou tradicionais, em dias festivos ou em momentos especiais.

 

            Porém, há ocasiões únicas em que a tradição se cruza com a história, em que a lenda se entrelaça com a realidade e que fazem parte de todo um quadro inolvidável que perdurará para sempre.

 

            Não haverá aldeia portuguesa que não cumpra a tradição. Pelo S. Martinho vai à adega e prova o teu vinho! Diz o povo e a memória oral. Mas é a Jeropiga a bebida que tradicionalmente acompanha as castanhas pelo S. Martinho, pois não há magusto sem Jeropiga.

           

É comum ouvirmos dizer que “castanhas e jeropiga adoça o coração e aquece a barriga.”

 

            Se normalmente a Jeropiga é usada para beber com castanhas assadas é-o também excelente para acompanhar frutos secos, como nozes, avelãs ou figos e mesmo alguns doces tradicionais como filhós, fatias douradas ou broinhas de Natal.

 

            Há quem persiste em denominar a Jeropiga como “o vinho do porto dos pobres”. Entende-se o porquê se pensarmos que este finíssimo licor era servido aos convivas na ausência daquele pois o povo não tinha condições económicas para o adquirir, fazendo-o substituir pela Jeropiga.

           

A Jeropiga, como qualquer bebida de teor alcoólico deve ser consumida com moderação e parcimónia. Caso contrário pode chegar a bater forte e a dar azo a confusões e mesmo a momentos rocambolescos e hilariantes.

 

            Conta-se que certo dia, um sujeito embriagado entra num bar e senta-se ao lado de outro que estava já sentado numa outra mesa a beber um copo de Jeropiga.

-Ó amigo, desculpe-me lá, mas eu não pude resistir. É que o senhor é a cara chapada da minha mulher quando está a beber Jeropiga!

- Ouça lá ó cavalheiro! Você quer gozar com a minha cara, é?

 Não, a sério! Tirando o bigode a semelhança é incrível!

- Oh homem mas que bigode? Eu não uso bigode!

- Pois não, mas usa a minha mulher!

 

            Em todas as casas mais antigas dos Moinhos, fossem de origem feudal, como a denominada Casa Grande, ou de origem humilde, seriam a maioria, cada objecto tinha uma história para contar. Mas quem vai no futuro contar essas histórias? A memória ainda continua viva! Mas até quando? Já muitos partiram, muitos já fizeram a derradeira viagem, compete à Confraria da Jeropiga esta nobre missão que é fazer com que a memória prevaleça e vença o esquecimento.

 

            Atente-se que em lustros outrora vividos se passavam longos serões em família, sentados à lareira. O homem, a mulher e os filhos, conversavam sobre a vida do campo. Sobre o tempo, sobre os afazeres quotidianos. Alegres e com muito boa disposição. No fim comiam-se figos secos com nozes e bebia-se a SUPREMA Jeropiga.

 

            Outro quadro de invulgar riqueza acontecia pela quadra pascal. Depois de um período de recolhimento, de jejum e oração eis-nos chegados ao Domingo de Páscoa. De rua em rua, de porta em porta o padre e dois acólitos davam a todos as Boas-Festas. O rosmaninho e o alecrim à porta, ao fundo das escadas, indicava a vontade expressa do proprietário em receber Deus Ressuscitado em sua casa.

Aleluia, Aleluia, Jesus Ressuscitou, Paz a esta casa!” Depois do Padre aspergir a casa com Água Benta, recorrendo a um raminho de oliveira, o beijar da Cruz era o momento maior do camponês e da sua família, quase sempre acompanhado por familiares e amigos.

            No fim, a hospitalidade portuguesa volta a manifestar-se. Numa mesa coberta por uma toalha de alvo linho oferece-se aos presentes uma fatia de bolo de buraco acompanhada por uma FÍNISSIMA Jeropiga.

 

            E pelas Festas de Nª Senhora da Conceição, quando as famílias de outras paragens se visitavam juntando-se para almoços de arromba? À volta de umas sopas de casamento, de um arroz de ferssura, de uma chanfana de Cabra Velha, regadas por um bom vinho de Lamas só faltaria mesmo um café de chocolateira e uma SUPREMA Jeropiga. Era a cereja no cimo do bolo, o golpe final em que os convivas afirmavam convictos. “Estou que nem um abade!”

 

            Servida em garrafas de vidro minuciosamente trabalhadas, com pinturas simples mas belíssimas, lá vinha o vinho do porto dos pobres, a EXTRAORDINÁRIA Jeropiga que era servida em cálices a condizer com a garrafa. Quadro sublime e majestoso digno da mesa de um rei.

 

            As nossas raízes são a nossa maior riqueza e neste particular os quadros passados na província, banhados na humildade e na generosidade continuam a perdurar porque providos de essência e substância.

 

            Outro quadro peculiar era o “Cantar das Almas”. Grupos de homens com lucernas para alumiar o caminho percorriam as aldeias cantando às almas. Em troca recebiam esmolas, fundamentalmente cereais que transportavam em grandes sacos de burel mas também figos secos, castanhas e maçãs. Com o produto da venda das esmolas mandavam dizer missas para sufragar as almas dos fiéis defuntos.

            No fim da entoação dos versos era usual aceitar um cálice de Jeropiga para adoçar a garganta acompanhados por um prato de bolinhos secos.

 

            As colheitas aproximam-se do seu fim. Nas eiras de laje carcomida amontoam-se espigas de milho dourado. Pela noite dentro, grupos de homens e mulheres armados com um zaguncho de ramo de oliveira abrem a capa e soltam a espiga. São as descamisadas que vão até de madrugada, em noites cálidas em que nem uma aragem bole. No intervalo de uma cantiga distribuía-se figos, bolos de canela e Jeropiga, a tal, a MARAVILHOSA.

 

            E quando o resineiro prepara mais um dia de jorna, mal o galo anuncia o nascer do dia, antes de abalar para o pinhal para ganhar o pão nosso de cada dia, vai à garrafa que está na cantareira e sorve um golo de jeropiga para dar ânimo e enfrentar corajosamente o árduo trabalho que o espera.

 

 

            Uso que ainda hoje tem entusiástica manifestação nos Moinhos é uma tradição associada à quadra natalícia cujas origens remontam a antiquíssimas celebrações universais do solstício de Inverno, tendo em conta que o Sol, enquanto elemento central de todas as cosmogonias antigas foi objecto de inúmeras cerimónias, ritos e cultos, é o Cantar das Janeiras. Realiza-se entre o Natal e os Reis. Homens e mulheres expressam a sua intenção pacífica e lá vão, de terra em terra, de rua em rua, entoando cantigas de boas-festas e loas ao Menino Jesus. Com a tradicional hospitalidade as gentes recebem a tocata e os cantadores com um ou dois copos de Jeropiga INOLVIDÁVEL.

 

            Mas são tantos e tantos os quadros que podemos apontar como típicos de Moinhos e portadores de riqueza imensa, que a boca se secaria de contá-los. E aí, minhas senhoras e meus senhores, seria preciso molhar tantas vezes a garganta em Jeropiga EXCEPCIONAL, só dessa, que a mente se toldaria e naturalmente passaria a ver a dobrar.

           

Ainda assim, não podemos deixar sem uma alusão alguns momentos em que a Jeropiga não podia faltar e que fazem parte do nosso imaginário colectivo.

           

            Bebia-se Jeropiga em dias gélidos, quando de manhazinha se partia para a apanha da azeitona;

 

O moleiro molhava sempre o bico quando saía para a distribuição dos taleigos que carregava em cima do jerico;

 

O Mestre no lagar depois de comer uma tibornada bebia sempre um cálice de Jeropiga. Para abafar, dizia ele!

 

E quando se brindava aos noivos no dia da boda! De copo em riste: “À saúde dos Noivos!”

 

A dona da casa quando recebia as visitas ao Domingo à tarde servia café e Jeropiga acompanhada com bolos;

 

Até a mãe parturiente ao receber as visitas oferecia um copo de Jeropiga às amigas e vizinhas que acorriam a felicitar a família;

 

E quem se não lembra das festas que se faziam quando os soldados regressavam do Ultramar? Enfeitavam-se as ruas com mimosas. Ai senhores, não faltava em cima da mesa uma garrafa de Jeropiga.

 

O futuro sogro, quando já permitia o namoro da filha na varanda era usual oferecer ao futuro genro um cálice de Jeropiga e uns biscoitos feitos à lareira;

 

E quando o carteiro, depois de tocar a corneta no Largo de S. Francisco iniciava a distribuição da correspondência. Ó senhor carteiro vai um copinho? Ò Ti Maria só se for uma jeropiguita.

 

E tantos, tantos momentos únicos em que a Jeropiga sempre foi  Rainha e senhora!

 

Porque a Jeropiga é FANTÁSTICA e ...

 

É de beber e chorar por mais!

 

 

            Tudo aconteceu nos Moinhos, na sequência de uma brincadeira que decorria numa adega, em que uma dúzia de amigos, tantos quantos os que hoje são entronizados e que fazem lembrar a última Ceia de Cristo, confraternizavam que aconteceu o imprevisto. Partiu-se o garrafão da Jeropiga, daquela que até os anjos bebem lá no céu. Tragédia logo ali reparada com um compromisso solene. Criar a Confraria da Jeropiga! Sim senhor! Homens de fibra! Rijos como manda a tradição. Destemidos como exige o coração! Vamos a isso! Que é como quem diz, mãos à obra!

           

Honrar o produto, dar-lhe vida, conferir-lhe o imprescindível destaque, respeito e nobreza. Perpetuar a tradição e a memória mais genuína do povo, foi o propósito aglutinador. À gente de uma cana! Homens de: “Mais vale quebrar do que torcer!”

 

            E assim se faz a história. E assim encontrou a Jeropiga o aconchego, o respeito, o carinho, o destaque, o reconhecimento nas gentes dos Moinhos. De alma e coração d dúzias de homens souberam colocar o SUPREMO líquido num pedestal. Quiseram guindar a Jeropiga ao trono báquico, sublinhando as memórias, as tradições, os usos e costumes dos seus antepassados, pese o facto de Moinhos ser uma aldeia pequenina.

Mas não foi igualmente numa terra pequenina onde o Menino Deus escolheu nascer? As terras medem-se, essencialmente, pelas suas gentes, não pelo seu tamanho. O que conta é o ser e a alma!

 

 

            Quando na noite fria, com o cheiro a lenha queimada a pairar no ar, em volta de um genuíno queijo de cabra vai de abusar de uma EXCELENTE jeropiga. A rematar o lote de entradas uma broa de milho e pão caseiro acabado de sair do forno a lenha. E boa, boa companhia para colorir a amizade. É assim que ainda hoje as gentes dos Moinhos comungam à volta da Jeropiga, honrando o precioso néctar.


            Mas é preciso consumir jeropiga, a FANTÁSTICA, com sensatez e parcimónia, não vá o demo tecê-las. Bebida a esmo a Jeropiga tolda o império dos sentidos, arranca o discernimento e pode dar em borrasca.

Quem te avisa teu amigo é!

 

Conta a lenda que depois de uns copitos bem bebidos de Jeropiga, o Chico Lenha, quando a visão já o traía e o fazia ver a dobrar, costumava afirmar quando lhe diziam:

“Ó Chico, já não vais sozinho!”

Ele ripostava:

“Mal-aventurado é o que está só, porque se cair ninguém o há-de levantar. Antes ser dois do que um, já que da sociedade e da companhia se tira proveito.”

 

Comum era o Fernandes quando chegava a casa depois emborcar meia dúzia de Jeropigas no Zé Meco, numa disputa acesa em frente ao espelho. “Olha lá, ó tu que estás aí a fazer caretas. Anda cá a ver se és homem. Partia-te todo! Ai não vens. Cobardolas, até de um homem bêbado tens medo!

 

             

            Em solidariedade, em amizade, fraternidade e partilha a Confraria da Jeropiga tem como objecto a promoção, divulgação e defesa da Jeropiga produzida nos Moinhos.

O entusiasmo, o amor que é colocado em torno da Jeropiga é elucidativo da dedicação dos Confrades à respectiva causa.

Há desejos que não se proclamam, vivem-se!

Há desejos que parecem sonhos mas que são vividos numa realidade estonteante, suculenta, adocicada como a Jeropiga.

 

É a alma de um povo a falar mais alto.

 

A Confraria da Jeropiga dos Moinhos é uma lição.

 

 

Num remate de pé descalço, como manda a tradição,  aqui vai esta quadra, feita do pé p´rá mão.

 

A Jeropiga dos Moinhos,

Aquece-nos o coração!

Até já no céu os anjinhos

Aprenderam esta lição!

 

 

 

Em amizade, tudo pelo vinho e pela Jeropiga!

 

 

José Manuel de Paiva Simões

 

 

 


 

 

 
 
 
 
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