Professor José Manuel de Paiva Simões - Oração da Sapiência - Matança do Porco - 15.10.2011
ARTIGOS

Matança do Porco

 

Real Confraria da Matança do Porco

15 de Outubro de 2011 - Miranda do Corvo

 

Oração da Sapiência

 

Sejam bem-vindos ao magnífico Concelho de Miranda do Corvo, território este que detém o record de confrarias em Portugal, e por isso, um destes dias acabará por figurar no Livro do Guinness.

Não venho fazer alta prosápia ou amplas alocuções sobre o porco, debitar decibéis sobre as suas origens e difusão pelo mundo ou mesmo sobre as suas relações nem sempre fáceis com as várias religiões. A quem quiser ir por aí, sugiro algum tempo na internet e tudo ficará desvendado.

 Ao invés, opto por fazer uma viagem, singela e castiça, por um dos quadros mais típicos e por isso mais característico do nosso povo e da nossa região na sua total e inteira simplicidade e genuinidade, num entrecruzar do despretensioso e do popular, roçando por vezes o rude, e até, quem sabe, o escabroso, conforme seja a delicadeza dos ouvidos dos destinatários, procurando contar uma história cheia de outras histórias à volta da matança típica do porco.

Mas....

Agora é que a porca torce o rabo!

Já agora, qual a origem do nome: porca? Talvez porque o pénis do porco se pareça com um parafuso!

Mas não temam, o parafuso e a porca têm relações sexuais perfeitamente normais, e pasme-se os suínos chegam a ter orgasmos de quase 30 minutos …. Aí acho que perdemos para o porco! Que inveja, pelo menos alguns!

Era uma vez…..

O tempo estava invernoso, que é o mais propício à conservação das carnes e quando os grandes afazeres agrícolas estavam praticamente concluídos, as colheitas agasalhadas, as tulhas repletas, os tonéis atestados, as talhas azeitadas, os alpendres atochados de lenha para a peleja contra a invernia, bem podia o lavrador, de consciência tranquila e apetite folgador, entregar-se à matança do porco.

Era farta a casa do Tónio das Malhadas. O porco crescera a bom crescer e estava gordo. Alimentado com produtos da horta, frutas e com sobejos de origens variadas. Cascas de batatas, de feijão, nabo, abóbora, cenoura, fruta e de espécies espontâneas; dos excessos de produção de produtos da horta, dos figos, das bolotas que eram apanhadas debaixo dos sobreiros, das castanhas, do bagaço da azeitona, dos farelos e das sêmeas dos cereais e de um nunca mais acabar pois o porco come tudo.

O tempo começava a estar frescote! O Outono já ia avançado e a chegada do frio já se fizera anunciar. Era o prenúncio para a matança do porco.

Observando os astros, determinava-se a matança quando a lua estivesse em quarto crescente que era «para a carne crescer na panela» conforme afirmava a sabedoria popular.

Matança, festa íntima da família e de amigos mais chegados, sendo considerada a mais popular festa dos pobres. A mulher do Tónio das Malhadas já havia comprado a tripa e temperos para os enchidos. Estava tudo preparado para o ritual que começara uma ou duas semanas antes em que familiares e amigos se haviam juntado para ir apanhar a carqueja para chamuscar o bicho. Deitaram os bois ao carro e ala que se faz tarde. Quando andavam no pinhal a apanhar a carqueja para chamuscar o porco, dissertavam entre si sobre as pessoas da aldeia, criticando uns, destacando outros, maldizendo alguns e zombando de uns tantos. Neste entretanto, o Zé Ruço com a sua habitual veia para a paródia, virou-se para os amigos e disse:

            - Deixem-se lá de tretas e de falar de um e de outro,

            - O Ramiro, esse sim, tem feito imenso para levantar o povo.

            - Mas ele é algum revolucionário ou agitador do Movimento Cívico? Disse o    Chico da Aurora.

            - Não, amigos, ele é fabricante de despertadores.

Armados com enxadas, ancinhos e forquilhas foi num ápice que carregaram o carro e regressaram ao povoado.

O matador viera cedinho. Bem cedinho e espalhara meticulosamente sobre um cepo de carvalho carcomido pelo tempo, um vasto conjunto de artefactos que usaria mais tarde no exercício da matança do porco: facas, cutelos, fuzis e machados que iria utilizar na operação de matança e desmancha do animal.

Um copo de cachaça feita quinze dias antes no alambique do Zé Bogalho aquece as entranhas dos destemidos convivas que irão deitar a mão ao bicho.

            - Que pomada! Diz o Taliscas estalando a boca. - Desta não me importava eu de beber até aos 200 anos!

            - Continua assim que vais longe! Afiançou o Leiras!

            - Longe não chega mas talvez consiga ir até ao Centro de Saúde. Isto se ainda o não tiverem fechado! Troçou o Artur Pisco.

As mulheres da casa têm tudo a postos! Grandes alguidares de barro vermelho vidrado para aparar o sangue e gamelas para as tripas do bicho.

Quatro marmanjos dirigem-se ao curral e toca de deitar a mão ao porco. É o deitas! O animal, desconfiado, parece pressentir o desenlace e foge a bom fugir.

            - Cuidado Manel! Olha aí esse buraco!

            - Porra pá! Pensas que isto é a Madeira ou quê? Lá é que há buracos e muitos….

            - Ó pá deixa-te de lérias e faz força que estás aqui para trabalhar. Isto não é a Assembleia da República!

O animal estrebucha, guincha, debate-se, corre como doido num alarido que deixa o galinheiro ao lado num grande alvoroço onde um galo de altas esporas e de crista vermelha diz para as suas galinhas:

            - Mas que algazarra é esta? Já não se pode galar as pitas descansado?

A luta foi renhida colocando em desordem o chiqueiro. Não obstante, o suíno acabou por ceder às mãos fortes e experientes de uns quantos mariolas que o arrastaram porta fora.  

Um em cada uma das patas e um outro agarrado às orelhas conduziram o porco até à cabeçalha do carro de bois onde o matador iria desferir o golpe fatal.

Mas há quem vacile. Quem tenha pena do animal. Esses são de imediato s que dão sinal severamente avisados pelo matador:

- Fora daqui almas dum raio! Estupores! Ainda me vão coalhar o sangue!

Imobilizado o animal, posicionado o matador a preceito, este agarra com a mão esquerda a queixada do porco e com a direita desfere um golpe, rápido e certeiro na papada do animal, abrindo caminho para o sangue jorrar para o alguidar empunhado por um rapazola que virava a cara ao lado para não ser espirrado pelo sangue que saía aos gorgulhões.

Num último suspiro o animal sinaliza a sua derradeira luta.

A mulher do lavrador acorreu a receber o alguidar do sangue e a levá-lo para a cozinha do forno, mexendo, mexendo sempre com uma colher de pau e adicionando-lhe uma porção de vinho para este não coalhar.

            O caseiro, o Tónio das Malhadas gritava eufórico:

            - Saia um copo para o matador e para a rapaziada! Mas só um que ainda há muito trabalho pela frente e não quero aqui ninguém bêbado e a fazer figuras tristes!

            - Por falar em figuras tristes, sabem qual era a anedota desta semana no Amigo do Povo? Diz o Chico Moleiro.

            - Ah alma dum raio, conta lá tu que andas sempre tão bem informado. Retorquiu o Tónio Crica.

            - Então aqui vai:

            - O Zé do Alho e o Boticas tinham bebido uns copos a mais e entraram no comboio da linha da Lousã e confundiram um oficial da marinha que ali viajava com o revisor e apresentaram-lhe os bilhetes.

            - Já vos disse que não sou o revisor!

            - Não é o revisor?

            - Chiça, já vos disse que não sou o revisor. Sou oficial da marinha.

            Intrigados os dois bêbados olharam um para o outro e disseram:

            - Porra pá, enganámo-nos, afinal isto aqui é um barco.

            As mulheres já tinham cozido o sangue na cozinha do forno e apresentavam-no agora aos pedacinhos, sobre carqueja fresca, em travessas de barro vermelho. A enfeitar salsa migada com alho aos bocadinhos, regado com azeite e muito vinagre.

Acabados de comer a bucha, para muitos um verdadeiro pitéu, um manjar, o Chico da Boiça começou a carregar a carqueja que estava debaixo do alpendre a secar e começaram a chamuscar o bicho, que é como quem diz: queimar os pelos do animal, bem como para endurecer o couro para que a salga seja mais eficiente, enquanto outros raspavam com uma sachola ou facas velhas e lhe tiravam as castanholas.

Durante a queima, limpeza e raspagem, vão-se aceitando apostas relativas ao hipotético peso do animal, cujo acertante se orgulha do olho que tem para estas coisas.
- Dá mais de cem quilos!

- Eu não dou tanto! P’raí uns noventa e três!

- Depois veremos! Há aí uma balança para tirar as teimas?

Finda esta operação, procede-se à lavagem do animal com água corrente, enquanto munidos de um pedaço de telha serrana lhe raspam o couro. Seguidamente, procedem à lavagem do ânus donde se retira alguma matéria fecal, porventura ainda existente, rasgam-se e limpam-se cuidadosamente as orelhas e põe-se a nu os nervos das patas traseiras para aí entrar  o chambaril e a corda que mais tarde suportará o porco depois de aberto.

De seguida levam o bicho para a adega onde é pendurado no tecto com a ajuda de uma corda presa aos barrotes.

“ Se queres ver o teu corpo, mata o teu porco” diz um dos convivas, referindo-se ao provérbio que dá conta das semelhanças viscerais entre um e outro animal.

Então, o matador faz um golpe longi­tudinal no ventre e extrai o «fato» que é constituído pelas tripas, a bexiga, os pulmões, o fígado e o estômago. As tripas e o estômago são colocados numa gamela de madeira. Os pulmões e o fígado, vulgarmente denominados «fressura» são pendurados num prego espetado num barrote para depois fazer o magnífico arroz de fressura. Esventrado o animal, todas as zonas ensanguentadas são lavadas com vinho e alho, que se junta, depois, ao sangue da matança. A operação de abertura do porco é sempre um momento de alguma precisão, não vá a afiadíssima faca perfurar alguma tripa e deitar muito do trabalho a perder.
Enquanto o matador vai dando explicações técnicas à medida que o seu trabalho se desenrola, alguém com ar de entendido refere que no porco tudo se aproveita, para logo outro responder “ - eu no porco gosto de tudo, até da maneira como ele anda. “ o que resulta em gargalhada geral.

 

 Depois de pendurado, para uma melhor secagem, o matador faz um corte ao longo de todo o dorso do animal colocando um prato debaixo da respectiva cabeça para recolher o sangue que venha a escorrer.

Antes de se fechar a porta para evitar que as moscas entrem, o Tónio das Malhadas oferece um copo de água-pé a todos os convivas, incluindo ao senhor Prior que entretanto chegara para o almoço. Bebido o copo o Prior sempre afável e carinhoso procura inteirar-se da saúde dos seus paroquianos e pergunta à Rosa do Outeiro:

            - Olha lá, como é que vai o teu marido com as crises de sonambulismo dele?

            - Já está curado, senhor Prior!

            - Não me digas? Como assim curado? Que remédio lhe deste?

            - Olhe sr. Prior, despedi a empregada...

 Era agora chegado o tempo das mulheres reforçarem o seu trabalho. Para além da preparação do almoço e da sala para os convivas se sentarem, cabe-lhes outras importantes tarefas: tirar a gordura das tripas, ir lavar as tripas ao ribeiro, preparar, temperar para que depois sejam cheias com a carne do alguidar que resultará nos mais diversos tipos de enchidos que se hão-de curar suspensos em varapaus no fumeiro da enorme chaminé tradicional.

E amanhã, logo bem cedinho, segue-se o desmanche para o qual ficam desde já todos convidados. Porque “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer!

Antes de terminar deixo-vos agora com uma pequena historieta, escrita no século XIX e que retrata bem a importância do porco para o camponês.

Ao chegar a sua casa, um camponês ouviu um barulho esquisito vindo do curral.

Chegando lá constatou que havia um ladrão a tentar levar o seu porco ainda pequeno que havia comprado na Feira dos Bois.

Aproximou-se vagarosamente do indivíduo surpreendendo-o a tentar pular o muro com o seu porco.

Batendo nas costas de tal invasor, disse-lhe: “Ó bucéfalo, não é pelo valor intrínseco do quadrúpede, mamífero doméstico, da família dos suídeos, ordem dos artiodáctilos, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de galgares as profanas da minha residência.

Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para gozares com a minha alta prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica no alto da tua sinagoga que te reduzirá à quinquagésima potência, que o vulgo denomina, nada.

O ladrão, confuso, disse: “Ó senhor, eu levo ou deixo o porco?”

Este é apenas um quadro das muitas e ricas tradições do nosso concelho de Miranda do Corvo e aquele que a Real Confraria da Matança Típica do Porco promove e preserva como chancela identitária de um povo, numa cerimónia que dá origem a uma enorme variedade de pratos: o serrabulho, o bucho recheado, o arroz de fressura, o sangue cozido e tantos, tantos outros pratos feitos à base de carne de porco que constituem a matriz de um povo e de uma região no cruzamento dos usos e costumes que levam a nossa memória colectiva a deleitar-se na arte e magnificência da nossa gastronomia e a afirmar continuamente Miranda do Corvo como…

 

 

 “UMA TERRA DE MIL ENCANTOS”!

José Manuel de Paiva Simões


 

 

 
 
 
 
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