Junho 1997 - Aqua Nativa nº 12 "Arquitectura Tradicional da Bairrada"
ARTIGOS

Arquitectura Tradicional da Bairrada
 
por Rui Miguel Rosmaninho Gonçalves
 
1. INTRODUÇÃO
1.1 A REGIÃO DA BAIRRADA: ASPECTOS HISTÓRICO-CULTURAIS
 
Existem algumas dificuldades em delimitar geograficamente o espaço vulgarmente conhecido por Bairrada. Isto deve-se, em parte, à supremacia dos critérios vitivinícolas e, dentro deles, a aspectos fundamentalmente económicos. As demarcações territoriais, efectuadas em diferentes épocas, visam assegurar, sobretudo, a qualidade vitivinícola.
As primeiras alusões à Bairrada remontam ao século XVIII. As referências pombalinas ao vinho testemunham já uma acção política de demarcação do território. Na verdade a política encabeçada pelo Marquês de Pombal visava substituir nesta região a cultura da vinha pela dos cereais. Com o decorrer do tempo esta operação veio a manifestar-se infrutífera, apesar de o arranque das vinhas, ordenado pelos alvarás de 1765 e 1767, se ter processado com grande violência, não poupando sequer a colheita do ano em curso.
Foi no século XIX que se verificou uma importante reflexão sobre a delimitação do território em questão. Para este facto contribuíram as pesquisas de António Augusto de Aguiar2. Este professor e político classificou, em 1865, o «país vinhateiro da Bairrada» (fig.1), esboçando-lhe os contornos geográficos: «Entre as serras do Caramulo, e o Bussaco ao nascente, Águeda ao norte, e Aveiro ao noroeste, Cantanhede ao sudoeste, e Coimbra ao sul existe um vasto trato de terreno mais ao menos homogéneo em hábitos e interesses, que forma na sua maioria o país denominado a Bairrada»3.
 
 
No século XX surgiram várias interpretações sobre a área ocupada pela Bairrada. Destaca-se o estudo realizado por Jorge Gaspar (fig. 2) e a Carta Vitícola da Bairrada (fig. 3). A primeira interpretação vem mencionada na obra «As Feiras de Gado na Beira Litoral» (1970, Livros Horizonte, pp. 18-20), onde o autor teve a preocupação de definir a Beira Litoral em termos geológicos, geográficos e culturais e de a sub-dividir em várias regiões. Todavia, Jorge Gaspar não define com precisão o limite Oeste da Bairrada, deixando assim imprecisa a fronteira territorial com a região da Gândara. A Carta Vitícola da Bairrada, elaborada por António F. M. Ferreira em 1985, visava a demarcação da região de modo a assegurar uma qualidade vitícola pretendida.
 
       
 
Neste contexto, para analisarmos a casa bairradina iremos primeiramente descrever a sua implantação e o agrupamento dos seus espaços constituintes e, seguidamente, caracterizar a sua identidade face às casas das regiões circundantes e ao legado histórico-cultural.
 
1.2. A CASA DA BAIRRADA
Apesar de a arquitectura vernácula apresentar uma inércia notável à sua transformação, a arquitectura tradicional bairradina não possui um carácter estático. Muito pelo contrário, encontra-se em constante evolução. Fazer um estudo sobre a casa bairradina implica situá-la num determinado período da sua história, que apresente uma significativa estabilidade formal, de materiais de construção e de organização arquitectónica. Existe um elevado número de casas antigas na região que, apesar de terem sofrido algumas alterações ou se apresentarem em mau estado de conservação, mantêm ainda as suas características iniciais, permitindo fazer uma reconstituição fiel da arquitectura bairradina do século XIX. Contudo, faltam elementos que nos elucidem com segurança e exactidão acerca das transformações que esta terá conhecido anteriormente. Arsénio Mota, na sua obra «Estudos regionais sobre a Bairrada», faz uma breve referência a este assunto: «De facto, ignora-se o teor das mudanças que a casa popular bairradina terá sofrido através dos tempos. Não se conhecem registos. Pode supor-se que se distinguiu escassamente da arquitectura das casas rurais de outras zonas do país e, também, que terá evoluído muito lentamente até à nossa época. Mas é de crer que o processo das mudanças se iniciou na segunda metade do século passado e se acelerou nos anos da primeira República e, em especial, após a Segunda Grande Guerra, com a expansão das comunicações, da circulação do dinheiro e do comércio a acompanhar o aumento demográfico e a renovação das técnicas agrícolas»[4].
Pelos motivos acima referidos, o nosso estudo incidirá na casa tradicional da Bairrada do século XIX, antes do processo de «descaracterização» que se traduziu, entre outras coisas, pela utilização de novos materiais de construção de proveniência industrial e pela adopção de modelos arquitectónicos estrangeiros, devido essencialmente à forte corrente de emigração que se verificou nesta região. É de salientar, contudo, que estas mudanças não se processaram imediatamente nem se traduziram por uma substituição total dos modelos anteriores. Por este motivo, algumas casas construídas no início do nosso século constituem bons exemplos de estudo, na medida em que preservam as características fundamentais da casa oitocentista. É de salientar, também, o carácter marcadamente rural da casa em questão. A agricultura foi durante séculos a actividade principal da Bairrada e ainda hoje ocupa um lugar de destaque. Por isso não admira que tenha condicionado a arquitectura tradicional da região: a casa bairradina, além de proporcionar o conforto de um lar, reflecte rigorosamente o predomínio e as especificidades da actividade agrícola (a casa como ferramenta de trabalho). A organização espacial é, portanto, o reflexo de uma economia agrícola.
A casa funcionava (ou pretendia funcionar) como uma entidade auto-suficiente. Nela era possível produzir-se e armazenar-se uma vasta quantidade e variedade de produtos necessários ao consumo interno, podendo os seus habitantes subsistirem longamente sem recorrer ao exterior. Algumas produções visavam quase exclusivamente o auto-consumo, mas os excedentes de outras (nomeadamente o vinho, as batatas e alguns animais) destinavam-se a ser vendidos.
A autonomia[5] e a complexidade interna caracterizam a cãs bairradina, estando bem patentes na organização espacial dos elementos que a constituem. Ela é formada por um conjunto de espaços cobertos que se distribuem em torno de um pátio central a céu aberto, fechando-o (fig.4). A cada um desses espaços corresponde uma função diferente: a adega, onde se produz e armazena o vinho; os currais, onde se recolhem os animais de trabalho e o gado para consumo; os alpendres, onde se guardam as palhas, lenhas e alfaias agrícolas; e a habitação propriamente dita, onde se insere a espaçosa cozinha, a sala, os quartos e o sobrado, este último utilizado como celeiro e também para arrumos. Para completar a descrição dos constituintes desta casa é necessário falar do terreno anexo, de cultivo, onde se localizavam a horta, o pomar, o logradouro, a cabana[6], a meda ou a carocha[7], a eira e alguns espaços cobertos, nomeadamente a «casa da eira»[8] e alpendres.
 
 
Quando não está inserido na casa, o terreno de cultivo localiza-se nas proximidades.
Além de casa-pátio[9], é também uma casa-fachada[10], uma vez que apresenta uma frontaria bem cuidada. Na sua composição usavam-se alguns elementos decorativos nomeadamente frisos de beirais, molduras nos paramentos exteriores, socos inferiores e ainda molduras nas portas, portões, janelas, janelos e frestas. Esta fachada abrangia sempre a habitação e, por vezes, a adega ou um telheiro. Tais cuidados não se estendem às fachadas secundárias, muitas vezes sem reboco e com a pedra ou adobes à vista (exceptuam-se casos pontuais de aberturas com moldura).
As molduras exteriores dos vãos apresentam soluções variadas, dependendo do material de construção de que são feitas. Podem ser em cantaria, tijolo maciço, reboco ou, simplesmente, uma pintura sobre a argamassa de cal e areia. Também existem alguns casos pontuais de molduras em madeira, especialmente em fachadas secundárias. Para efeitos de descrição da casa bairradina iremos descrever os aspectos considerados essenciais para a sua caracterização. Estes aspectos relacionam-se com a implantação e o agrupamento dos espaços constituintes: pátio, currais, alpendres, adega e habitação. Com o intuito de tornar mais inteligível a leitura deste tópico iremos utilizar as expressões verbais no presente histórico.
 
IMPLANTAÇÃO
 
São dois os factores que condicionam a implantação da casa: a configuração do terreno e as estradas de acesso. O primeiro é responsável pela geometrização final da área de implantação; o segundo é, talvez, o mais importante uma vez que é para a estrada que fica sempre voltada a fachada principal, onde se insere o espaço da habitação. Quando a casa é delimitada por mais que uma estrada, a referida fachada encontra-se quase sempre voltada para a via principal ou para aquela que se manifeste mais importante em termos de acessos.
Esta casa não tem quaisquer preocupações de orientação em relação aos pontos cardeais. Tal facto repercute-se particularmente na disposição da compartimentação interior do espaço da habitação que ignora por completo o factor insolação.
A dependência da casa bairradina em relação às estradas traduz-se num povoamento ao longo das vias de comunicação. As casas situam-se sempre à face de estradas. Até mesmo aquelas que se encontram isoladas, localizadas fora dos núcleos urbanos das localidades, possuem frontaria cuidada voltada para um caminho.
 
PÁTIO
 
O pátio é um espaço a céu aberto cujo chão é a própria terra, sem qualquer pavimentação. Constitui o núcleo da casa bairradina, em torno do qual se organizam os espaços cobertos. Quando não é totalmente fechado por esses espaços, possui muros altos a delimitá-lo parcialmente.
Sendo o local por onde passa toda a vida da casa, o pátio assume um carácter polifuncional. Para além de espaço de circulação de pessoas, dando acesso às diversas áreas cobertas que compõem a casa, é utilizado para manobrar e até estacionar o carro de bois e para deixar à solta o gado proveniente dos currais circundantes, que se recolhe à noite. É o espaço onde se localiza a estrumeira, indispensável à agricultura.
O contacto com o exterior faz-se através de um portão, rasgado num muro de delimitação ou na parede que suporta um alpendre, também, denominado telheiro ou alpendorada (figs. 5 e 6).
 
   
 
Quando a casa possui terreno anexo de cultivo, a ligação com o pátio faz-se através de uma porta, portão, cancela ou, simplesmente, por uma abertura na vedação. Por vezes, à semelhança da situação anterior, o pátio contacta com a horta por meio de um alpendre (figs. 7 e 8).
 
 
    
 
CURRAIS
 
Em torno do pátio localizam-se os currais. Estes são, de certa maneira, hierarquizados consoante a importância do animal para que se destinam. De facto, existe quase sempre um curral principal onde se recolhe o boi, que se distingue dos outros devido não só às suas maiores dimensões como também ao facto de possuir uma manjedoira, onde é depositada a comida. O gado bovino é extremamente importante para os bairradinos, não só pela sua carne, mas por desempenhar um papel crucial nos trabalhos agrícolas e por constituir o meio de transporte principal em épocas anteriores.
Os restantes currais estão reservados para as aves e animais de menor porte, nomeadamente porcos, coelhos, galinhas e gado caprino. A coelheira e a capoeira apresentam reduzidas dimensões. Esta última possui uma pequena abertura junto ao chão por onde as galinhas saem para o pátio.
No pátio interior a céu aberto ficam, muitas vezes, os recipientes com água para o gado beber. São objectos de pedra e denominam-se «pias».
Quando a casa possui retrete, esta localiza-se sempre junto aos currais e não dentro do espaço da habitação. É uma pequena casa que tem, por vezes, um assento em madeira com buraco e tampa com asa. Nem sempre os currais se apresentam como espaços autónomos. Por exemplo, na casa Leonel Silva (fig.9), localizada em Sepins, encontram-se sob um alpendre, que serve para armazenar a comida dos animais e abrigar o carro de bois.
 
 
Na casa José Rolo (fig.10), localizada em Tamengos, os currais têm a particularidade de possuírem um piso superior compartimentado com um quarto de empregado e um celeiro onde se guarda a comida para os animais. Uma abertura no pavimento de madeira permite atirar comida para a manjedoira do boi, localizada no piso inferior. Semelhante situação está presente na casa Isilda Barreto 2 (fig.11), localizada em Arinhos, cujo curral do boi dá acesso a um pequeno piso sobradado onde se guarda a palha. Para arejar e iluminar os currais abrem-se frestas ou janelos nas paredes exteriores. Com o mesmo intuito constroem-se meias-paredes interiores. Por vezes, os currais possuem paredes exteriores de dupla altura com as fenestrações a um nível superior.
 
     
 
 
ALPENDRES
 
O alpendre é um espaço coberto que serve para arrumações, nomeadamente lenhas e alfaias agrícolas, ou então para juntar e guardar cereais, funcionando como celeiro.
Serve também de abrigo para pessoas e ainda para o carro de bois.
Na casa bairradina o alpendre encontra-se voltado para o pátio interior, aberto em pelo menos um dos seus lados. A estrutura que suporta a cobertura é sempre de madeira, apoiada directamente sobre paredes de adobes ou pedra. Às vezes assenta parcialmente em pilares, que podem ser de adobe, pedra ou madeira.
Podemos considerar dois tipos de alpendre: coberto autónomo e coberto não autónomo.
Por cobertos autónomos designamos aqueles que funcionam como espaços independentes relativamente aos restantes espaços cobertos da casa, sem qualquer ligação directa com estes. O acesso aos alpendres faz-se unicamente através do pátio (fig. 12).
 
 
Os cobertos não autónomos possuem comunicação com outros espaços, servindo-lhes muitas vezes de apoio ou complemento.
Uma das suas particularidades é que, para além de zona de arrumação e abrigo, funcionam como um espaço de circulação. Este tipo de alpendres aparece frequentemente ligado a adegas, currais e cozinhas (figs. 13, 14 e 15).
 
      
    
 
Existem, todavia, dois casos particulares de cobertos não autónomos. O primeiro diz respeito aos alpendres que possuem comunicação com o espaço anexo de cultivo, fazendo o contacto entre o pátio e as hortas (fig. 16). O segundo, também denominado telheiro, serve de passagem coberta entre o exterior (estrada) e o pátio (fig. 17).
 
    
 
O telheiro é predominantemente associado às habitações do tipo rés-do-chão. Por vezes comunica com a janela e/ou porta da cozinha e, nalguns casos, com pequenos janelos pertencentes a quartos ou a alguma divisão de arrumos. Por vezes, possui uma escada que dá acesso a um celeiro sobradado, localizado num piso superior do próprio telheiro ou habitação (fig. 18). A ligação ao exterior é efectuada através de um portão, cujas dimensões permitem a passagem do carro de bois. Para além de arrumação e passagem, este tipo de alpendre serve também de abrigo, tanto para o carro de bois como para pessoas que entram.
 
 
Existe um aspecto a assinalar nas casas bairradinas: quando o telheiro se destaca na frontaria, a adega ocupa uma posição secundária no seu interior, voltada para o pátio, podendo ter contacto com o exterior através de um portão que se abre para uma estrada secundária. Esta situação é típica das zonas da Bairrada mais próximas do mar, onde a cultura dos cereais assume um papel de grande relevância e ultrapassa mesmo a viticultura, dominante no resto da Bairrada. Por este motivo, à medida que nos deslocamos de nascente para poente, a adega vai cedendo ao telheiro o lugar de destaque na casa, a par da habitação (fig.19).
 
 
 
ADEGA
 
A adega constitui um espaço extremamente importante na casa bairradina, tanto no aspecto económico como no aspecto social, uma vez que funciona como «sala de visitas». É um lugar de convívio onde se provam os vinhos e se recebem os amigos. Enquanto espaço de trabalho (sua função principal) é o local onde se produz e armazena o vinho.
 
 
O espaço interior da adega é amplo, escuro e arejado por frestas ou janelos. Junto a essas aberturas estão, geralmente, os tanques[11] (figs. 20 a 23) onde se pisam as uvas e se conserva o mosto[12] em fermentação. Ao lado dos lagares fica a prensa[13] onde, numa fase intermédia do fabrico do vinho, se espreme a amálgama de uvas até restar apenas o engaço[14]. O vinho é armazenado em tonéis e pipas[15], alinhadas e apoiados sobre uma estrutura de vigas de madeira (fig. 24). Estas vigas assentam sobre bases de pedra e possuem, por vezes, as suas extremidades encastradas na parede. Para apoiar e fixar os tonéis nas vigas usam-se calços de madeira em forma de cunha ou então peças de madeira com a face superior arredondada (fig. 25).
 
       
 
O portão de acesso à adega apresenta dimensões suficientes para permitir a entrada do carro de bois com as dornas cheias. Na maior parte dos casos existem dois portões, um comunicando com o exterior (estrada) e o outro com o pátio interior (fig. 26), para facilitar a circulação do carro de bois.
 
 
 
Descarregada a uva nos lagares, o carro segue para o pátio, onde realiza a inversão de marcha ou sai para o exterior através do portão rasgado nas paredes que o delimitam. Ao mesmo tempo, este segundo portão proporciona o acesso dos animais de tiro (transporte) ao curral. Nos casos de um único portão, a saída do carro exige uma manobra de recuo. Quando esse portão está voltado para a estrada é comum existir uma ligação com o pátio através de uma porta destinada unicamente a pessoas (fig. 27).
 
 
Na Bairrada são abundantes as casas onde adega e habitação se encontram associadas, constituindo o alçado principal. Por vezes existem ligações entre estes dois espaços, através de janelos ou portas interiores (figs. 28 e 29).
 
      
 
Nem sempre a adega funciona como um espaço independente. Nalguns casos o vão do telhado é aproveitado para sobrado, noutros chega-se mesmo a criar um piso superior sobre a adega, destinado a um amplo sobrado ou à própria habitação (fig. 30).
 
 
Existe um caso particular de adegas que, associadas a um edifício de habitação de andar, possuem uma fachada com dois níveis diferentes de fenestrações. Todavia, as janelas ou janelos superiores não iluminam um piso superior sobradado mas sim a adega do rés-do-chão, que possui um pé direito bastante alto. São duas as possíveis justificações para este facto: a primeira é a necessidade de uma melhor iluminação e arejamento da adega; a segunda é a intenção de criar uma frontaria uniformizada de acordo com a altura e alinhamento dos vãos das janelas e janelos do edifício lateral, que geralmente é a habitação (fig. 31).
 
 
A importância da vitivinicultura manifesta-se em termos arquitectónicos quando a adega assume grandes dimensões, destacando-se dos restantes espaços da casa bairradina ou, quando se individualiza desta, constituindo um edifício autónomo localizado noutro ponto da aldeia e fora da área de implantação da casa. Nestes casos, a adega adquire uma volumetria peculiar, de acordo com dois tipos de edifício diferentes: adega térrea e adega integrada num edifício de andar. O primeiro ocorre sobretudo na região ocidental da Bairrada que, denunciando a proximidade da Gândara, apresenta solos mais adequados para culturas de cereais e onde o vinho não é produzido em tanta quantidade como sucede nos concelhos de Anadia e Mealhada. Os edifícios do tipo de andar concentram-se precisamente nestes últimos concelhos, essencialmente vinícolas.
O edifício de andar com adega no rés-do-chão possui grandes dimensões, sendo propriedade dos agricultores mais abastados. No rés-do-chão funciona a adega propriamente dita, enquanto que no piso superior se localiza um amplo celeiro (fig. 32).
 
 
Apresenta geralmente uma fachada frontal rebocada com bom acabamento, na qual as aberturas se dispõem quase sempre ritmadas: janela de peitoril ae janela de sacada ae janela de peitoril no piso superior e fresta ae portão ae fresta no piso inferior.
O edifício térreo é um tipo de adega com dimensões mais reduzidas (fig. 33). A fachada principal é igualmente cuidada e centrada num portão, apresentando frestas ou janelas de cada um dos lados.
 
 
Algumas adegas possuem divisões anexas destinadas a arrumos ou para habitação (um caso extremo que prova inequivocamente a importância deste espaço na Bairrada) (fig.34).
 
 
É importante referir também que algumas casas, além da adega, possuem um espaço coberto onde funciona o alambique[16]. Este espaço está voltado para o pátio e pode ser um alpendre ou um edifício fechado.
 
HABITAÇÃO
 
A habitação apresenta uma implantação bem definida no âmbito da casa, sempre junto a uma estrada de acesso. Para a rua fica voltada a fachada «nobre», que se distingue das restantes devido a um tratamento mais cuidado, que se estende à adega ou ao telheiro quando estes se encontram ao lado da habitação.
No edifício de habitação localizam-se os espaços domiciliares: a sala, a cozinha, os quartos, o corredor, a saleta e as divisões para arrumos. Por vezes, o edifício é ocupado no rés-do-chão pela adega ou, mesmo, por currais (caso particular de habitação em encosta), Em inúmeros exemplos a cozinha fica fora do edifício principal, formando um volume anexo de menores dimensões.
A sala encontra-se sempre em contacto com a frontaria da habitação, através de janela de sacada e/ou de peitoril, quando se localiza num piso superior, ou através de janela de peitoril e uma porta, quando se encontra no rés-do-chão. Não se trata porém de um compartimento para uso diário da família, uma vez que possui funções essencialmente cerimoniais: para receber os visitantes nas festas solenes, nomeadamente na Páscoa e Natal; nos casamentos; nas festividades em honra dos santos padroeiros, que abundam um pouco por toda a Bairrada; e como local de velório quando morre um dos residentes. No dia-a-dia serve unicamente como espaço de circulação, dando acesso aos quartos ou a uma saleta. Uma característica da sala bairradina reside no facto de possuir sempre ligação com, pelo menos, um quarto, através de portas que apresentam, na sua maioria, dois batentes.
A saleta é um compartimento que existe em grande abundância nas habitações da Bairrada, mas não possui uma função precisa, podendo utilizar-se para diferentes fins. Pode servir como quarto de dormir, como local de culto (dispondo neste caso de um oratório) ou então como divisão para arrumos de apoio a uma sala ou à cozinha. Trata-se de um compartimento pouco segregado (comparativamente, por exemplo, aos quartos de dormir) e possui pelo menos duas portas, o que faz dela um espaço de passagem.
A cozinha é o compartimento onde se preparam e se realizam as refeições. Ao mesmo tempo, possui um carácter social muito relevante pois é o local de reunião e convívio da família. Apesar de ser um espaço muito importante, apresenta-se secundarizado na casa bairradina. Na maior parte dos casos localiza-se nas traseiras da habitação, voltada para o pátio. Essa secundarização, propositada, confere-lhe uma maior intimidade, isolando-a do exterior. Mesmo quando se encontra voltada para a estrada, as suas paredes exteriores pouco cuidadas «discriminam-na» relativamente à frontaria com bom acabamento.
Quando a cozinha não possui forno, este localiza-se, geralmente, num anexo independente denominado «casa do forno», a que se acede através do pátio ou da cozinha.
Funciona como uma cozinha secundária onde se confeccionam os alimentos para os animais. Além de uma «casa do forno», as cozinhas podem ter outras divisões anexas, tais como uma despensa ou um quarto.
Os quartos de dormir localizam-se maioritariamente no tardoz da habitação, embora por vezes disponham de janela na frontaria. Para a iluminação de quartos interiores é comum abrirem-se janelos para outras divisões, ou colocarem-se bandeiras envidraçadas nas portas que se abrem para a sala, saleta ou corredor.
Os sobrados localizam-se na parte superior das habitações, aproveitando o vão do telhado ou formando um piso superior autónomo com a abertura de janelas de sacada e/ou de peitoril numa frontaria alta (fig. 35). São espaços destinados a arrumações, onde se guardam e secam alguns produtos agrícolas, nomeadamente batatas e milho. Por vezes, possuem um quarto destinado a um empregado ou a algum elemento da família, quando esta é numerosa. A compartimentação interior de uma habitação bairradina rege-se por regras onde a complexidade e a variedade estão bem patentes. O seu estudo será feito no capítulo 5 deste trabalho.
 
 
 
1.3. A IDENTIDADE DA CASA BAIRRADINA
 
A casa bairradina não ficou isenta de influências oriundas das regiões circundantes. De facto, possui um carácter de transição entre a casa térrea gandaresa e das gafanhas e a casa de andar da beira alta, adquirindo, contudo, certas particularidades que lhe conferem uma identidade própria.
Se nos deslocarmos através da Bairrada na direcção oeste-este verificamos que a casa, em particular o edifício da habitação, sofre alterações tanto na sua estrutura e organização interna como na altura e número de pisos. Na direcção norte-sul estas alterações não são tão evidentes.
A arquitectura popular da Bairrada apresenta três zonas diferentes. Os factores que condicionam e definem o tipo de casas existentes ou abundantes numa determinada zona são de vária ordem: geográfica (relevo do terreno), geológica (materiais de construção disponíveis) e diferentes realidades agrícolas. É importante salientar, contudo, que esta classificação assenta, fundamentalmente, no predomínio de um determinado tipo de casa, o que não nega a hipótese deste existir noutra zona, embora de forma minoritária (ver mapa tipológico da Bairrada e mapa dos limites e sub-divisões da Bairrada ae figs. 36 e 37).
 
 
 
 
ZONA 1
 
A Zona 1 abrange as áreas mais próximas do mar, ou seja, as freguesias localizadas a poente nos concelhos de Cantanhede e Oliveira do Bairro.
Aqui os terrenos são relativamente planos e a densidade populacional é inferior à da restante área da Bairrada. Este facto deve-se, porventura, à menor riqueza dos seus solos que são, predominantemente, arenosos. Os cereais representam uma grossa fatia da produção agrícola, assim como a vinha. Esta, contudo, é cultivada em menor escala relativamente às áreas vizinhas do interior.
A casa, reflexo parcial das condições naturais da região, é feita à base de adobe e pedra. Os espaços cobertos organizam-se em torno de um pátio central e são predominantemente térreos (fig. 38). Na frontaria cuidada, o portão abre para um telheiro, que muitas vezes funciona também como celeiro. A adega, quando existe, encontra-se normalmente remetida para um plano secundário, localizando-se no interior da casa, com acesso pelo pátio. O edifício da habitação é quase sempre de duas águas e o vão do telhado é geralmente aproveitado para um sótão sobradado, iluminado por uma fenestração na empena lateral, sem qualquer vidraça. Também são abundantes as platibandas na frontaria.
 
 
 
ZONA 2
 
A Zona 2 corresponde à faixa central da Bairrada, compreendendo os concelhos de Anadia, Mealhada e a parte oriental dos concelhos de Cantanhede e Oliveira do Bairro. Caracteriza-se por relevos suaves, solos diversificados e consequente variedade de culturas agrícolas.
Contudo, é a vinha que o ocupa o primeiro lugar no conjunto das culturas agrícolas desta zona. Em alguns lugares, a extensão do seu cultivo assemelha-se a uma monocultura.
 
 
A casa rural desta zona responde às necessidades impostas por uma nova feição agrícola (fig. 39). Na frontaria, mais elevada, destaca-se o portão da adega, que ocupa agora uma posição de realce. Os povoados são formados simultaneamente por edifícios térreos e de andar: os primeiros abundam na periferia e os segundos nos centros. O edifício de habitação de andar possui algumas particularidades: quando possui adega no rés-do-chão, o piso superior destina-se à habitação propriamente dita; quando o rés-do-chão é ocupado pela habitação e o primeiro andar por um sótão sobradado, a adega localiza-se ao lado do edifício, participando portanto da fachada frontal da casa. Mesmo os tipos de habitação térrea desta zona possuem uma frontaria mais elevada que na Zona 1, permitindo a existência de um sótão sobradado mais alto e amplo. Os anexos, em particular os alpendres, possuem também um piso superior que funciona como celeiro ou palheiro. Os próprios currais têm, por vezes, um andar superior onde se guarda a comida dos animais.
 
ZONA 3
 
Consideramos como Zona 3 uma pequena faixa limítrofe do território bairradino, a oriente, e que abrange as áreas do sopé da serra do Buçaco. A paisagem altera-se, apresentando relevos acentuados, que testemunham a proximidade da Beira Interior. A vida rural apresenta também uma nova realidade agrícola: a cultura da vinha, agora em pequena escala, cede lugar a outro tipo de culturas, nomeadamente a do milho. A par deste tipo de agricultura, surge também a actividade pastoril.
A casa que abunda nesta zona adapta-se ao relevo aproveitando o seu declive. É uma casa de encosta que possui rés-do-chão e primeiro andar, com a particularidade do piso inferior ficar parcialmente tapado pelo terreno (figs. 40 e 41). Por vezes possui mais pisos, consoante o desnível a vencer.
 
 
 
A grande diferença da casa de encosta relativamente aos restantes tipos de casas bairradinas está na organização dos seus espaços: o pátio e os anexos desaparecem e dão lugar a um único edifício. Este é constituído por pisos funcionalmente distintos: o piso superior, muitas vezes sobradado, destina-se à habitação de pessoas, enquanto que no piso inferior se localizam as lojas do gado[17] e as arrecadações.
Quando o acesso principal da casa (estrada) se situa ao nível do piso superior correspondente à habitação, a frontaria oferece geralmente um bom acabamento.
Mesmo quando o acesso é efectuado a partir do piso inferior existem alguns cuidados no tratamento da fachada principal.
A adega, elemento fundamental e corrente no resto da Bairrada é, em termos de predomínio, substituída pelas instalações dos animais ou, então, conciliada com elas num piso inferior.
Neste caso, trata-se de uma adega de pequenas dimensões, proporcional à reduzida produção de vinho. Interiormente, a casa de encosta apresenta uma particularidade: a cozinha, que nas restantes zonas se localiza no rés-do-chão e geralmente fora do perímetro da habitação, insere-se no piso superior, dentro do edifício de planta rectangular que forma o bloco da casa. Contudo, existem algumas excepções, nas quais a cozinha constitui também um espaço anexo ao edifício principal mas ocupando uma posição no terreno que fica ao nível do piso superior.
O principal material de construção usado é a pedra calcária, abundante nesta zona. Os blocos de adobe não tiveram divulgação por estas bandas.
Uma das particularidades da casa de encosta, em termos construtivos, reside no facto do piso superior ser frequentemente construída em madeira ou apresentar tabique exterior.
 
CONCLUSÕES
 
Como se viu anteriormente, existem várias interpretações sobre a área abrangida pela Bairrada, mas todas elas pretendem defini-la, acima de tudo, com o intuito de assegurar a qualidade dos seus vinhos. Todavia, verifica-se que a esta unidade vitivinícola não corresponde uma unidade arquitectónica. Por outras palavras, não existe homogeneidade em termos de arquitectura popular, uma vez que a casa apresenta diferenças tanto ao nível da organização dos seus espaços constituintes como na altura e número de pisos.
Uma das conclusões que se tira da análise efectuada tem a ver com a altura da casa. Atravessando o território bairradino de poente para nascente, verifica-se que a casa térrea dá lugar à casa de andar, podendo pontualmente possuir mais pisos na faixa limítrofe oriental ae Zona 3 (figs. 42, 43 e 44). Este crescimento em altura é proporcional ao aumento de altitude dos terrenos que, à medida que nos aproximamos do interior, se apresentam mais irregulares e com maiores declives.
 
 
 
 
 
 
Em termos de espaços constituintes é talvez a adega que melhor caracteriza a casa bairradina, com especial destaque na Zona 2. No entanto, e à medida que nos aproximamos das áreas limítrofes a oriente e a ocidente da Bairrada, impõem-se outros espaços: na Zona 1 a adega começa a ser substituída pelo celeiro, enquanto que na Zona 3 dá lugar às lojas para animais.
É legítimo considerar a Zona 1 e a Zona 3 como áreas de transição arquitectónica, onde se misturam características de casas de diferentes regiões.
A primeira faz a transição para a casa gandaresa e a segunda para a casa da Beira Alta.
As conclusões tiradas referem-se à identidade da casa de cada uma das zonas do território bairradino. Vamos agora abordar a identidade do conjunto relativamente ao exterior, confrontando-a com a casa da região vizinha da Gândara.
Tanto a casa bairradina como a casa gandaresa possuem uma identidade própria mas existem, contudo, semelhanças que podem levar o observador menos atento a confundi-las. Esse possível equívoco deve-se ao facto de ambas se basearem num modelo de casa-pátio e casa-fachada.
Coloca-se, por isso, um problema de autenticidade: será a casa da Gândara o modelo de origem ou, pelo contrário, o resultado da adaptação da casa bairradina a novas realidades físicas e económicas? Tudo leva a crer que a segunda hipótese seja a mais provável. A Gândara ocupa uma área cujas condições naturais não são as mais propícias à ocupação humana (terreno arenoso e, frequentemente, pouco fértil), o que se traduziu num povoamento recente, de densidade populacional inferior à região da Bairrada. Esta última possui solos mais férteis que favoreceram uma fixação humana de longa data, como testemunham os vestígios romanos da Vimieira[18]. Tudo indica que a casa bairradina se «expandiu» para a região gandaresa, como uma consequência directa do crescimento da população e adaptou-se a uma nova realidade agrícola sofrendo, por isso, inevitáveis alterações. Estas alterações produziram duas identidades diferentes.
Estabelecida aproximadamente a identidade da casa bairradina, levanta-se o problema da sua origem histórica. Numa primeira aproximação o orientador deste trabalho sugeriu para notar as semelhanças com a casa romana de campo: a villae. Esta hipótese, posta apenas ao nível da organização dos espaços, tem a seu favor o argumento, ainda que muito vago, da presença romana nas terras bairradinas. A consulta de bibliografia específica e a conversa com o Prof. Doutor Jorge de Alarcão não nos permite, contudo, nenhuma conclusão definitiva, uma vez que os vestígios arqueológicos romanos existentes na região não são conclusivos. De facto, não é possível afirmar com total certeza a origem da casa da Bairrada. Levantam-se, a este respeito, duas hipóteses principais: ou o seu modelo tem origem nas villae romanas, sendo assim o resultado de um antiquíssimo fenómeno de aculturação, a que se seguiu um inevitável processo de adequação; ou, então, surgiu da adaptação às necessidades de um povo, satisfazendo as exigências da sua agricultura, e a semelhança com o modelo romano anterior é coincidência.
Provavelmente, o que ocorreu foi um conjunto de influências recíprocas entre estas possíveis origens, devido a fenómenos de aculturação e miscenizenação que se processaram ao longo do tempo. Este estudo, sobre a longa duração da casa bairradina bem como das suas origens históricas saiem, no entanto, fora do âmbito desta prova final, ficando esta última hipótese a ser confirmada em trabalhos posteriores.
Continua no próximo número


[1]  Dados obtidos a partir do artigo de A. Dias Cardoso, “O Arranque das vinhas no tempo do Marquês de Pombal”, Boletim Aderav, Aveiro, nº16, Maio 1987, pp. 33-35.

[2] António Augusto de Aguiar (1838-1887), professor de Química da Escola Politécnica e do Instituto Industrial de Lisboa, deputado (1879), ministro das Obras Públicas (1883) e par do Reino (1884). Estes dados foram obtidos de: F. Castelo-Branco, “Aguiar (António Augusto de)”, Verbo. Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, volume 1, coluna 772, Editorial Verbo, Lisboa, 1993.
[3] O distrito de Aveiro, ano XII, nº 690, sexta-feira, 20 de Setembro de 1867.
[4] Arsénio Mota, obra citada, Porto, Livraria Figueirinhas, 1993, pág. 37.
[5] Autonomia da casa relativamente ao exterior (a casa era uma entidade auto-suficiente) e autonomia de cada espaço constituinte relativamente aos outros, pois cada qual possui uma função diferente.
[6] Cabana ou cabanal é uma construção em madeira em forma de V onde se secavam as palhas. No interior guardavam-se muitas vezes utensílios agrícolas.
[7] A meda é um montão de molhos de trigo, aveia ou milho, sobreposto em torno de um pau central de maneira a formarem um cone. A carocha não tem pau central, sendo o cone formado pela mera sobreposição das palhas. A parte superior da carocha é atada com verga e tapada por um cesto sem fundo.
[8] A «casa da eira» é um espaço coberto, de apoio à eira, destinado à arrecadação de cereais e alfaias (nomeadamente malhos, ancinhos e ventilador).
[9] O modelo de casa-pátio teve grande divulgação na Bairrada até meados do nosso século. Todavia, é um modelo também aplicado noutras partes do país e do mundo, cujas origens remontam a civilizações antigas, nomeadamente a grega e a romana. Consiste fundamentalmente num conjunto de edifícios que se dispõem de maneira a formar um espaço interior fechado.
[10] A aplicação do modelo de casa-fachada implica a existência de pelo menos uma fachada à vista, com fenestrações para o exterior. Na casa bairradina este modelo está bem patente no tratamento esmerado da frontaria, onde se rasgam portas, portões, janelas, janelos e frestas. Os restantes alçados apresentam-se geralmente despidos de qualquer decoração e quase sem rasgos para o exterior.
[11] Nas adegas bairradinas existem quatro tipos de tanques para pisar uvas: o lagar, a dorna, o balseiro e a lagariça. O lagar é um tanque de planta rectangular ou quadrangular, construído em pedra ou em tijolo maciço ou, a partir da divulgação do cimento no século XX, em betão. A dorna é uma vasilha formada por aduelas, de boca mais larga que o fundo, usada sobretudo para o transporte das uvas, em cima do carro de bois; contudo, era também aproveitada para pisar uvas. O balseiro é uma vasilha alta, de grandes dimensões, formada por aduelas com o fundo mais largo que a boca. A lagariça é em tudo semelhante ao balseiro, excepto no facto de apresentar uma altura menor.
[12] O mosto é o sumo da uva antes de se completar a fermentação.
[13] A prensa é um mecanismo para espremer as uvas.
[14] O engaço é a parte que fica do cacho, depois de espremido. É aproveitado para fazer aguardente e como fertilizante agrícola.
[15] O tonel é uma vasilha de aduelas de madeira, de grande lotação, destinada a armazenar vinhos. A pipa é uma vasilha bojuda de tanoaria com menores dimensões que a anterior (capacidade de 21 a 25 almudes). Também existem os chamados pipos, que são pequenas pipas.
[16]  O alambique é um aparelho para fazer destilações.
[17] É interessante verificar que, nas localidades bairradinas do sopé da serra do Buçaco (zona 3), a expressão «currais dos animais» é correntemente substituída por «lojas dos animais», também usada na região da Beira Alta. É uma prova de que se trata de uma zona de transição, não só em termos arquitectónicos como culturais.
[18] Vimieira é uma localidade do concelho da Mealhada onde foram descobertos recentemente vestígios da civilização romana. São ruínas que testemunham uma ocupação de longa data no território bairradino.
 
 
 
Extraído da Revista
Aqua Nativa Nº 12
Junho de 1997


 

 

 
 
 
 
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