Dezembro 1997 - Aqua Nativa nº 13 "BAIRRADA - Alguns dos seus Aspectos" - José Rodrigues
ARTIGOS

I (1)

Pela vulgaríssima razão de que a periferia é geralmente uma zona de transição em que as características diferenciais se diluem e confundem, é difícil assinalar limites geográficos precisos à sub-região da Bairrada.

As terras limítrofes têm, nas vizinhanças imediatas, aspectos que sem serem substancialmente idênticos apresentam semelhanças que só a distância apaga e converte numa fisionomia própria. Não admira, pois, que em volta dum núcleo central fortemente diferenciado se hesite quanto à demarcação das zonas periféricas da região bairradina. Um curioso manuscrito do século XVIII, que encontrámos há pouco tempo num cartório particular, e que dá informes valiosos sobre a sociedade desta região nesses tempos já distantes, marca desta forma as fronteiras da Bairrada:

“«lato modo», discorrendo de Vilarinho do Bairro, território da Rial casa de Bragança, a Oliveira do Bairro e daqui a Avelans de Caminho, e desta à de Cima e daí à Mouta; e desta freguesia até Vila Nova de Monsaros em direitura à Vacariça, cortando linha recta a Casal Comba e Murtede, estrada de Aveiro acima até à Pedreira, lugar da freguesia de Vilarinho”.

Que a Bairrada se estenda da serra do Buçaco ao mar, como pretende Ribeiro de Vasconcelos («Notícia Histórica do Mosteiro da Vacariça»), afigura-se-nos opinião manifestamente errónea. As terras ocidentais da «Gândara» são inteiramente diferentes das da Bairrada, quer pela estrutura e relevo do solo, quer pela vegetação e pela paisagem, quer ainda pelos tipos populacionais.

O Prof. Dr. Amorim Girão («Guia de Portugal», vol. III) assinala os seguintes limites à Bairrada: ao sul, a linha de altitudes de que fazem parte as colinas de Murtede e Cantanhede; ao norte, as proximidades da Pateira de Fermentelos, abrangendo assim, parte do concelho de Águeda, a quase totalidade dos concelhos de Oliveira do Bairro, Anadia e Mealhada e ainda uma pequena área do concelho de Cantanhede (freguesias de Bolho, Sepins, Murtede e Ourentã).

Diferem, como se vê, as opiniões quanto aos verdadeiros limites da característica sub-região da Bairrada, embora todos a identifiquem, mais ou menos amplamente, com a bacia do Cértima, com excepção de Ribeiro de Vasconcelos que estende seus limites até ao mar.

A verdade é que a simples enunciação do termo «Bairrada» evoca imediatamente a ideia dum extenso vinhedo. De facto, é a cultura da vinha que dá a esta região o traço vivo da sua fisionomia corográfica e é nela afinal, que devemos procurar o elemento decisivo da sua identificação no território nacional. A agrologia será, pois, o elemento mais forte na diferenciação regional da Bairrada, e segundo esse critério, não andaremos longe da verdade se a delimitarmos com uma linha que partindo dos pendores do Buçaco, passe depois pelos limites exteriores das seguintes povoações: Pampilhosa do Botão, Carqueijo e Vimieira no concelho da Mealhada, Murtede e Sepins no concelho de Cantanhede, Torres, Pedreira de Vilarinho, Samel e Ancas no concelho de Anadia, Troviscal e Oliveira do Bairro no concelho de Oliveira do Bairro, Sangalhos, Avelãs de Caminho, Avelãs de Cima, Moita, Vila Nova de Monsarros, novamente no concelho de Anadia, até atingir outra vez as vertentes ocidentais da serra do Buçaco.

 

II (2)

A origem da maior parte dos topónimos perde-se na bruma dos tempos e constitui quase sempre um problema insolúvel. Quando assim é, intervém a fantasia popular criando lendas, por vezes cheias de graça ingénua, com que as populações, na ânsia de explicar, procuram romper o mistério que envolve a origem dos nomes e o nascimento das terras que habitam.

Assim, por exemplo, naquele manuscrito setecentista a que aludimos no primeiro artigo, vem a lenda do nome de Anadia contada desta forma pitoresca:

«Annadia é por sua natureza nome femeo, derivado com bem pouca corrupção daquela primeira mulher que a povoou, a qual se chamava Anna Dias, em cujo sitio a puzeram seus pais, senhores de hua boa tapada de vinha q. em dote lhe conferirão, cujo vinho vendia aos passageiros na estrada coimbrã que lhe distava pouco; e a bondade do vinho a fez conhecida em toda a parte e por ela deixou o proprio nome à terra que habitou que até ahi era um cazal de pouca gente e de nenhum nome».

É claro que os eruditos e as pessoas dotadas de espírito crítico não se satisfazem com tão simplistas conjecturas e procuram em mais profundas razões de ser, a formação e evolução dos nomes.

Nos acidentes do terreno, na sua constituição geológica, na topografia, na fauna ou na flora, nos eventos mais ou menos celebrados, enfim nos variadíssimos factos físicos ou humanos se pode encontrar a origem toponímica duma localidade ou duma região.

O nome da Bairrada tem, como é natural, prendido a atenção dos estudiosos, e são duas as versões principais acerca do  problema da sua derivação.

Uma delas, a do Prof. Amorim Girão, pretende que a palavra «Bairrada» signifique «conjunto de Bairros» tomando o termo bairro (antigamente barrio) não na sua acepção usual de «povoação ou parte de uma povoação», mas no sentido que lhe dá a linguagem popular, de certos terrenos em que o barro predomina, terrenos fortes e sobretudo próprios para a cultura cerealífera. Da abundância desses terrenos na região lhe teria advindo o nome («Guia de Portugal», vol III).

De forma idêntica se pronuncia a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira no artigo «Bairrada».

É diferente, porém, a tese do dr. Joaquim da Silveira, filólogo dos mais ilustres e bairrês devotado.

À sua velha e devotada amizade ficamos devendo a melhor contribuição para estes breves e despretensiosos apontamentos, pois em resposta a um pedido de elucidações, quis ter a bondade de escrever e de enviar-nos o valioso estudo que a seguir, com a devida vénia, transcrevemos:

«Bairro» nada tem que ver com barro. Nem a palavra portuguesa barro (argila), comum também ao espanhol e ao italiano – nem qualquer dos seus muitos derivados comuns ou toponímicos, como Barreiro, barreira, barral, barrenha, barranhão – barroso, barrento, barracento, - barrar, embarrar, - Barraço, Barrada, Barredos, Barrosa, etc., quer na linguagem culta, quer na popular ou dialectal tiveram jamais o i, que figura desde sempre em bairro e Bairrada.

A menção mais antiga, que conheço, do topónimo Bairrada para designar a nossa região, é só de 1708, no vol. 2º da Corografia Portuguesa do Pe. Carvalho da Costa. Mas já vários documentos, em latim, do séc. XI, anteriores portanto à formação do estado português, dão à mesma região o nome de Barrios e illos Barrios, isto é, os Bairros.

Mete-se desde logo pelos olhos, com esta aproximação, que os dois nomes exprimem a mesma ideia, um no plural e outro com o sufixo –ada que indica pluralidade ou grande quantidade, como quando dizemos a rapaziada por muitos rapazes; a ossada de um defunto por os seus ossos; uma papelada por muitos papeis; e identicamente carneirada, alhada, etc..

A par da ideia de quantidade o sufixo –ada exprime também muitas vezes outra ideia, contígua dessa, -a de maior dimensão ou extensão da coisa da coisa designada pelo radical, como por exemplo, em alpendrada, grande apendre; ribada, riba extensa; beirada, beira comprida; cumeada, cume longo; portada, grande porta, portão, etc, - e por isso também o vocábulo Bairrada existiu (e existe ainda na Estremadura cistagana) como nome comum para designar um «bairro rural dilatado».

Em vez de Barros, a nossa região chamou-se também nos primórdios da nacionalidade somente Barrio ou Bairro, no singular, como se deduz do determinativo –do Bairro aposto a tantos topónimos da Bairrada, para os diferençar de outros homónimos, já desde o séc. XIII pelo menos: -S. Lourenço do Bairro; Ois do Bairro; Torres do Bairro; Ventosa do Bairro; Oliveira do Bairro, etc..

É de notar, como fez Gonçalves Viana, nas Apostilas, I, 120, que o antigo vocábulo bairro (em baixo latim barrium) significou inicialmente «subúrbio, distrito rural de uma cidade ou povoação importante», em francês «baulieu d’une ville», que é o que significa o seu étimo arábico barr; mas deu-se também, às vezes, esse nome a qualquer «casal rústico, aldeia ou lugar pequeno, póvoa ou abegoaria» formados no dito distrito rural, e é neste último sentido que assenta, a meu ver, o uso do plural Barrios-Bairros.

Por todo o exposto e em conclusão, tenho para mim que o sentido originário do nome da nossa Bairrada é o de  «bairro rural, isto é, subúrbio extenso», subentendendo-se da cidade de Coimbra, da qual fomos na verdade dependentes até quase aos fins da dinastia afonsina; ou então «conjunto de bairros, isto é, de aldeias ou casais» disseminados nesse subúrbio, ao norte da cidade. Em espanhol ainda hoje os termos correspondentes aos nossos barriada e barrio são sinónimos e significam não só «arrabalde, subúrbio», mas também «grupo de casas ou pequena aldeia dependente de outra povoação, ainda que esteja afastado dela», em perfeita concordância com o que sucedeu em português.

Como coincidência curiosa e elucidativa quero ainda lembrar, que também a uma extensa região na parte norte do concelho de Santarém, que se estende até cinco léguas ou mais da cidade, isto é, até Vaqueiros, se dá ainda hoje indiferentemente, como eu próprio ouvi muitas vezes, quando morei em Alcanena, os nomes de Bairro e Bairrada.

 

III (3)

Foi nas terras que se estendem entre o Douro e o Tejo que a romanização se operou mais intensamente.

O Norte, e em especial a província de Entre-Douro-e-Minho guardou, mais pura, a influência nórdica. Prova-o  toponímia do local em que sobressai frequentes vezes nítido ressaibo germânico, provam-no os tipos populacionais na maior percentagem de olhos azuis.

Por seu lado, o Sul do país recebeu mais decisiva influência mourisca.

A toponímia está cheia de vocábulos de etimologia árabe; a etnografia aponta-nos a todo o passo uma ancestralidade da mesma origem; os olhos escuros são regra ao Sul do Tejo e afinidades estreitas existem entre os actuais saloios dos arredores de Lisboa e a população mourisca que ali, em recuados tempos, se fixou.

 

*

(4)

Não são muitos, é certo, os vestígios da civilização romana encontrados até agora na Bairrada. Mas existem os suficientes para poder concluir-se que o influxo latino também aqui chegou, o que é natural, pois a Norte e a Sul, nas vizinhanças imediatas, Talábriga e Eminium respectivamente, eram poderosos centros de irradiação.

O marco miliário encontrado nas vizinhanças da Mealhada e hoje exposto no átrio dos Paços do Concelho daquela vila, atesta a passagem da estrada militar de Antonino pelas nossas terras. Acresce que ainda não há muito tempo foram encontrados, em Mogofores, tijolos e outros objectos de cerâmica de modelação romana, e vestígios idênticos apareceram em Sepins, na segunda metade do século XVIII, segundo testemunhos escritos que possuímos dessa época.

É de crer, pois, que já no tempo da dominação romana, as terras da Bairrada houvessem atingido certo grau de desenvolvimento.

A cultura da vinha nesta região, a ela tão adequada pela especial aptidão do solo, deve ter, como de resto em todo o país, tradição romana.

Efectivamente, quase toda a nomenclatura vitivinícola portuguesa apresenta derivação latina. Lembramos, entre muitos outros, os vocábulos: vinha (vinea), uva (uva), vindima (vindemia), cuba (cuppa), lagar (lacar), podar (puto-are), etc..

Até ao séc. III da nossa era, Roma procurou defender os vinhos italianos da perigosa concorrência da províncias. Para isso usou de uma política proteccionista que se traduziu na proibição de plantação fora da península itálica e várias limitações ao desenvolvimento da viticultura do terceiro século por diante.

 

*

 

Certo é que em documentos dos séculos XI, XII e XIII há claras referências à existência de vinhas nas terras da Bairrada.

As Inquirições (1220 e 1258) a elas aludem com frequência, e no inventário que, em 1064, o Mosteiro da Vacariça organizou das suas povoações e propriedades, arrolou-se uma vinha em Ventosa («vinea de abba lodemiro hic in ventosa villa de ceppiis integra»).

Nas célebres pinturas do Apocalipse do Lorvão, célebre códice do séc. XII hoje guardado na Torre do Tombo, aparecem, num forte e bárbaro realismo, várias cenas da vida rural que, mercê da nossa rotineira agrícola, pouco diferem das de hoje: a vindima, o espremer das uvas nas velhas prensas de vara, ainda correntes na fabricação do azeite.

É de supor que o iluminista se tivesse inspirado na actividade agrícola desta região tão próxima do velho mosteiro lorvanense.

O vinho ia-se tornando, das bebidas fermentadas, a única popular, em detrimento da sicera (vinho de maçãs), que ainda no séc. X se fabricava em grande escala.

Isto significa que a viticultura atingira grande desenvolvimento nos séculos que imediatamente precederam e seguiram a fundação da nacionalidade. As terras bairrezas, tão próprias para a cultura da vinha, não podiam, decerto, ficar alheias a esse desenvolvimento.

Dentro delas fundara-se e prosperava um dos mais velhos mosteiros do nosso território, o mosteiro bubulense da Vacariça, cuja fundação parece remontar ao séc. VI. Ora, está historicamente averiguado que entre os mosteiros beneditinos que mais se distinguiram pelos seus trabalhos agrícolas se encontram justamente o da Vacariça, o de Lorvão e o de Pombeiro. O desenvolvimento da viticultura explica que a nossa região fosse habitada já nos séculos XI, XII e XIII por uma população relativamente densa.

Sob o domínio senhorial do Convento da Vacariça, ali nas faldas do Buçaco, estavam quase todas as povoações e propriedades rústicas que hoje constituem a Bairrada.

Mercê do seu prestígio religioso, iam aumentando as doações em benefício do velho mosteiro e em breve lhe pertencia quase toda a zona que media entre o Vouga e o Mondego.

Essas doações constam do Livro Preto da Sé de Coimbra e entre elas destacamos as que se referem à nossa região, para provar que de facto quase todas as actuais povoações, além de outras que se extinguiram, existiam nos primórdios da nacionalidade portuguesa.

Em 1003, um tal godo doa ao convento, entre outras povoações, Scapaens (Escapães); em 1005, D. Fruela Gonçalves doa-lhe Vila Nova que, pela localização deve ser Vila Nova de Monsarros («villa nova subúrbio colimbrie juxta nontem buzacho ad rio de Angarna…»); em 1020, são-lhe doadas as povoações de Livira (Levira) e Lazaro (?) com as suas extensas propriedades entre Vilarinho, Mamarrosa, Portouro e o rio Cértima («Villarino, mamoa rasa, portum aurea»).

O inventário já citado de 1064 refere-se à existência das povoações de Vila Nova de Monsarros, Sangalhos, Tamengos, Horta, Arinhos, Ventosa, Antes (?), Murtede, Vimieira e Luso.

Mas outros documentos provam que além destas, outras povoações bairrezas existiam já naqueles recuados séculos. Assim, um manuscrito oficial de 1082 alude a Quintanella (Quintela da Igreja) e a illa Nadia (Anadia). O Conde D. Sisnando, Governador de Coimbra, doa, no ano de 1048 da nossa era, ao mosteiro da Vacariça a villa de Orta confrontada do Norte com a villa Oles (Óis), designado “Oes de Barrio”, em 1109, na memória do falecimento do 6º bispo de Coimbra, D. João Anaia.

No acto da doação feita por D. Afonso Henriques a D. Marina Soares, em 1143, da villa de Encas (Ancas), há referência às povoações de Mogofores e de Sá.

Em 1226, D. Sancho II doa Mogofores a João Dias e a sua mulher D. Beatriz. No respectivo auto alude-se às povoações do Outeiro, Famalicão, Arcos, Sangalhos e Vale de Estêvão.

Outre indicação do relativo desenvolvimento económico desta região, nos primeiros séculos da nacionalidade, reside no seu avultado número de igrejas rurais. Havia-as no séc. XI, pelo menos em Monsarros, Tamengos, Murtede e Luso. A primitiva igreja de Sepins, que ainda existia semi-arruinada na segunda metade do séc. XVIII, já existia nos princípios do séc. XII, segundo se vê da data gravada num baixo relevo românico que transitou para o edifício actual. A Igreja de S. Lourenço do Bairro foi sagrada em Outubro de 1181, como pode ler-se na inscrição lapidar comemorativa que se conserva na casa da Junta da Freguesia.

Foi erigida em 1211 a primitiva igreja de S. Pedro de Avelãs de Cima.

Desagregadas as antigas villas que eram afinal conjuntos de casas de lavoura submetidas à administração dum senhor que no paço centralizava os poderes de administração, vieram substituí-las as freguesias.

O elemento moral que presidiu à sua formação foi de certo modo o espírito de comunidade moral que sobre as populações semi-bárbaras irradiava do velho campanário românico.

 

IV (5)

No artigo anterior mostramos como já nos primeiros séculos da nacionalidade a Bairrada era habitada por uma população relativamente densa, espalhada por muitas povoações – aldeias, póvoas, vilares, casais, granjas e herdades a que se dava a designação geral de villas. A maior parte delas ainda hoje existe, embora, já se vê, grandemente ampliadas em fogos e habitantes.

Tentámos igualmente demonstrar que a fertilidade do solo e a tão apropriada cultura da vinha, já então em franco desenvolvimento, explicavam, através duma actividade económica de certo relevo, um progresso demográfico que resistira a todas as incertezas e flutuações político-militares da Idade Média peninsular.

Sempre em esboço, pois nos falecem as fontes e o tempo para mais completo estudo e investigação, tentaremos agora desvendar um pouco da história das classes populares da região bairradina, nos primeiros séculos da nacionalidade.

O fundo da população rural, como, de resto, em todo o país, deve ter sido constituído pelo elemento mosárabe – fruto da transigência, e mesmo da colaboração da população hispanogoda com os tolerantes invasores sarracenos.

A raça asturiano-leonesa, directamente entroncada nos visigodos da «resistência», como hoje se diria, companheiros de Pelágio, gerara a classe nobre, guerreira por origem e, de certo modo, por missão histórica. Para sustentação dela e para seu lustre, as classes populares eram oneradas com tributos, amanhavam os campos, pastoreavam os rebanhos, manufacturavam alfaias e utensílios, erguiam castelos e residências, construíam, enfim, com humilde tenacidade, a vida económica da nacionalidade nascente.

Com o andar dos tempos e por esse fenómeno de osmose social mais poderoso que os prejuízos de casta, foi-se operando, cada vez mais acentuada, a fusão dos dois principais elementos étnicos: asturiano-leonês e mosárabe.

No decurso da história vários contributos populacionais se reuniram ao conjunto com ele se confundindo: francos e judeus e outros menos importantes.

Paradoxalmente, com os mais heterogéneos elementos étnicos se construiu uma das mais homogéneas nações da Europa actual.

 

*

 

A existência duma « Vila Franca», na freguesia de Tamengos, junto ao rio Cértima, a dois passos do Peneireiro, revela, com toda a probabilidade, a fixação nas terras bairresas dum núcleo de colonos da Europa Central aos quais se dava então a designação geral de francos.

Sabe-se como a imigração oriunda de Além-Pirinéus revestiu notável importância desde a vida para a Península do Conde Henrique de Borgonha, pai do nosso primeiro rei, até aos princípios do séc. XIII.

 

(6)

Conhecemos ainda as melancólicas ruínas de Vila Franca entre a estrada Lisboa-Porto e a linha férrea, escondidas nos olivais. As pessoas de sessenta ou setenta anos lembram-se perfeitamente de a povoação ter uma vida normal e razoável população.

Quando lá fomos em criança havia já, de pé, só uma casa, e as paredes desmanteladas de algumas outras; à beira das ruas que as ervas invadiam.

Mas dessa casa saía ainda o fumo da última lareira. Nela viveu até quase ao derradeiro alento, pois só dali o levaram para morrer, o último habitante de Vila Franca. Viu o pobre velho, desertarem para os lugares vizinhos, um a um, todos os seus conterrâneos. Por fim, partiram os próprios filhos. Mas ele, fiel à terra já deserta, onde nascera, sozinho entre ruínas e entre saudades, todas as noites acendia o fogo no lar da velha moradia.

E essa chama trémula e quase extinta, representava, porventura, o facho duma antiga raça de colonos que das planícies frias do Centro da Europa viera, há oito ou nove séculos, povoar a nossa terra e trazer-lhe, na vitalidade de um sangue novo, o entusiasmo com que emprestou às ainda indecisas liberdades municipais maior força e mais rasgada consciência.

É curioso relembrar a propósito, certa cerimónia pagã que desde tempos imemoriais se celebrava em Vila Franca e que denotava, pela singularidade, estranha origem: no adro da capela de S. José, já também demolida, havia, pousado num barroco, um enorme pedregulho. Chamavam-lhe a «pedra da sesta».

 

(7)

No dia da festa do santo, juntava-se ali grande romaria de povo dos lugares vizinhos. Ainda lá fui. Era uma tarde cheia de vivacidade e de cor, a do arraial de Vila Franca, no dia 19 de Março. O sol da primavera ria nos salgueirais do Cértima, vinham cantando os ranchos de raparigas através dos campos e no ar havia um hálito de ressurreição.

As limonadeiras e tremoceiras faziam farto negócio, e às vezes tudo aquilo acabava à cacetada, porque o vinho da região predispõe para tais andanças.

Em certa altura da festa, quando os gaiteiros rufavam com maior estrondo, a gaita de foles gemia com mais profunda convicção e a vozearia era mais estridente, avançavam para a «pedra da sesta» grupos de cavadores.

E então, encostando-lhe os peitos e retezando os músculos, esses homens erguiam a pedra da sua cova secular e rolavam-na pesadamente à volta  do adro até vir tombar de novo no seu alvéolo.

Todos os anos os trabalhadores do campo vinham cumprir o velho e misterioso ritual, no dia de S. José.

Essa cerimónia em que havia estranhos ressaibos dum culto bárbaro à Força, marcava o início da sesta na parte da freguesia de Tamengos que fica a nascente do rio Cértima.

Nos outros lugares, a poente, a sesta começava oito dias depois. Assim continua a ser, com imperturbável pontualidade.

Mas a pitoresca e antiquíssima tradição da «pedra» tão ligada estava à desaparecida povoação que, extinta Vila Franca, de todo ela se obliterou.

A imagem do santo transitou para Aguim. Ali se festeja agora, com arraial em que os simpáticos «Zés-p’reiras» de outro tempo foram substituídos pelos «jazzs» que moem melodias exóticas, durante toda a tarde, em cima duns palanques.

Que saudade das romarias de Vila Franca!

 

*

 

Foi esta primitiva gente da Bairrada de tão devairadas origens, amalgamada e unificada no cadinho dos séculos que, durante toda a longa Idade Média surribou os campos, neles abriu sulcos e os regou com o suor do seu rosto, plantando, geração após geração, os vinhedos que haviam de dar a estas terras a sua especial fisionomia agronómica e corográfica e constituem um dos grandes factores da economia nacional.

 

V (8)

Feita alusão no último artigo, às características étnicas da população bairresa, interessará agora surpreendê-la sob o ponto de vista económico-social nas primeiras épocas da nossa história.

Vimos como esta região, não obstante ser ela teatro prolongado das lutas entre os invasores sarracenos e a reacção asturiano-leonesa, se apresentava já nos séculos XI e XII habitada por uma população relativamente densa e activa, a avaliar pelo grande número de povoações e pela cultura porfiada da vinha, dos cereais e das frutas a que frequentemente aludem documentos coevos.

É a essa laboriosa população inferior, sujeita durante séculos aos mais pesados gravames em benefício das classes dominadoras, que se deve a valorização do solo pelo desbravamento sucessivo de charnecas e matagais, regularização e irrigação das terras, enquanto os senhores delas se limitavam a cobrar, quantas vezes cruelmente, o melhor dos seus frutos e rendimentos.

Embora seja lícito supor que o mais acentuado desenvolvimento demográfico da região, relativamente às regiões vizinhas do Leste e do Sul, explicado pela fertilidade do solo, trouxesse, com a abundância da mão de obra, a mais rápida libertação civil do camponês, não resta qualquer dúvida de que este trabalhou, até, pelo menos aos meados do séc. XII, em regime de adscrição forçada.

Nas primeiras épocas da nossa história, o agricultor bairrês é um servo da gleba. Vive compelidamente ligado ao prédio do senhor.

Confunde-se com ele e, assim, com ele é obrigatoriamente transmitido.

Em contra-partida, também dele não pode ser expulso. Era o chamado homem da creação, colono adscripto, por si e seus descendentes, quer às terras do rei, quer às dos particulares, nobres ou eclesiásticos.

O vínculo da pessoa do trabalhador à gleba, acha-se, quanto à nossa região, comprovado por documentos exarados na primeira época da nacionalidade.

Reza assim um título de partilhas feitas entre o bispo de Coimbra, D. João e seu irmão Martim Anaia, lavrado em 1149 da nossa era:

«Na era de 1187 (era de Espanha) João, bispo de Coimbra e seu irmão Martim Anaia dividiram entre si as propriedades que lhes pertenciam por sucessão paterna, sendo árbitros e partidores N.

Estes dividiram todas as ditas herdades e distribuíram-nas por sorte. As que tocaram ao bispo D. João foram: em Torres, Godesendo com o seu casal; João Pedro, Martim Annes, Osendo Godins: - Em Vilarinho, Pedro Vermuz: - Em Oes, Alvito Gonçalves, Truitesendo Pelaes, Pedro Peres, Gonsalo de Guimara, metade do casal de Vermudo Calvo, a quarta parte do casal de Gonsalo Suares, etc.»

(Vid. Herculano – Hist. de Portugal – 6, pág. 197)

Nitidamente se nota neste instrumento de partilhas, a completa identificação do agricultor com a terra, a tal ponto que os outorgantes confundem esta com aquele, como se duma só entidade se tratasse. E assim era, com efeito, económica, jurídica e socialmente.

 

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Como anteriormente notamos, quase todo o litoral entre o Mondego e o Vouga pertenceu, no decurso do século XI, ao mosteiro da Vacariça, opulentíssimo em bens que lhe advinham por doações, mercê do prestígio religioso de que gozava entre a população mosárabe e da tolerância que em regra os reis mouros mostraram pelos cristãos submetidos.

Foram, portanto, os monges da Vacariça, durante longos anos, os senhores de quase todas as terras bairresas. O inventário já citado de 1064 assim no-lo demonstra de forma iniludível.

Um tanto inopinadamente, em 1094, menos de meio século antes da fundação da nacionalidade, Raimundo, conde de Borgonha, governador do ocidente cristão da Península, em nome de seu sogro Afonso VI de Leão e Castela, faz doação do mosteiro com suas terras e, portanto, com os respectivos servos ao bispo de Coimbra, D. Crescónio e aos clérigos da sua sé.

Com grande parte desses domínios, apenas modificados quanto à sua estrutura jurídico-social, se mantiveram a Mitra e o Cabido da Sé de Coimbra, até às grandes reformas liberais e 1834.

 

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A adscrição forçada transformava-se no decurso do século XII e princípios do século XIII, em colonato livre. O agricultor deixa de fazer parte integrante do prédio: pode abandoná-lo e transferir-se para terras de outro senhor, para os domínios reais ou para dentro dos limites dum concelho. É assim que na carta de doação feita em 1226 pelo rei D. Sancho II a João Dias e esposa, da povoação de Mogofores e seu termo, já não se usa da forma utilizada no acto de partilhas de 1149 atrás citado.

O objecto da doação é identificado assinalando-se-lhe os limites territoriais e não se alude já, como dantes, às pessoas dos moradores dos respectivos casais.

E embora se não saiba ao certo se tais moradores eram já verdadeiros «herdadores», isto é, cultivadores possuindo as terras livremente, apenas obrigados ao respectivo tributo pago ao senhor delas, ou simples colonos livres, da classe dos «Juniores», isto é, daqueles que amanhavam a terra sem domínio próprio, a título precário mediante o pagamento do foro, a verdade é que a adscrição forçada tinha, sem dúvida, findado na nossa região, no final do século XII (Vd. S. Wloszcewski – Histoire de Mogofores, in Arquivo do Distrito de Aveiro, V, 6º)

Este facto é confirmado pelos termos em que foi exarado o título de venda que, em 1291, D. Sancha Guilelme faz ao cónego D. João Martins de Suylaes de «todo o herdamento que ella havia em Mogofores e em Sam Matheus a quintaã e a seara de vinha, e os cazais que ella há nos ditos Lugares, com todolos Seos termos, e sas pertenças».

Em certo passo, o documento refere esta circunstância:

«…e chamados, e presentes todolos homens que moram nos cazais dos ditos herdamentos, e a dita Donna Sancha meteo entom na posessom (na posse) dos ditos herdamentos o dito Dom Joam Martins…»

Isto significa que os cultivadores dos prédios, neles residentes, foram chamados a assistir ao acto para assim ficarem notificados da transmissão dos imóveis.

Dava-se-lhes, pois, solene conhecimento da pessoa do comprador a quem, de futuro, haveriam de pagar o foro ou tributo, devido pela fruição da terra.

Com homens da creação, na acepção antiga de servos da gleba, não se comportaria assim, o respectivo senhor.

 

 

Nota do Director: o conjunto de artigos da autoria do dr. José Rodrigues Rosmaninho, que foi ilustre advogado em Anadia, durante várias décadas, como em outro lugar se diz, reproduz-se, agora, não apenas como preito de homenagem ao insigne investigador da História Local, mas também porque eles contêm um conjunto vasto de informações sobre a região da Bairrada como raramente se escreveu. A existência destes artigos sempre foi conhecida e constituíam referência obrigatória para quem sobre a matéria se debruçasse. Simplesmente, o veículo perecível em que foram vasados e a cada vez maior dificuldade em consultar os jornais donde constam, levaram-nos a inseri-los  nesta Revista, porque a AQUAnativa constitui já um vasto repositório de assuntos sobre a região da Bairrada, por enquanto, de mais fácil acesso. As notas apostas aos artigos são da nossa inteira responsabilidade.

1 Primeiro artigo inserto no Jornal de Notícias – Porto, na página «A Bairrada» nº27 (pág.7), de 12 de Outubro de 1946.

2 Segundo artigo inserto no Jornal de Notícias – Porto, página «A Bairrada» nº28 (pág.7), de 19 de Outubro de 1946.

3 Artigo inserto no Jornal de Notícias – Porto, página «A Bairrada» nº29 (pág.7), de 26 de Outubro de 1946.

4 A cinquenta anos de distância, a afirmação perde alguma da verdade de então. Em vários locais da região da Bairrada têm vindo a ser encontrados vestígios de recuadas épocas, nomeadamente da romana. Veja-se, a título de exemplo, as notícias que a esse respeito se davam na última AQUAnativa.

5 Artigo inserto no Jornal de Notícias – Porto, na página «A Bairrada» nº34 (pág.8), de 30 de Novembro de 1946.

6 Sobre esta povoação pode ler-se na AQUAnativa, nº 6, pág.14, uma curiosa “notícia” da autoria de José Cerveira Lagoa, intitulada “Vila Franca, da extinção à reabilitação”.

7 Sobre a «pedra da sesta» e o ritual de Vila Franca ver AQUAnativa, nº9, pág. 15, um artigo da autoria de Nuno Rosmaninho.

8 Inserto no Jornal de Notícias – Porto, na página «A Bairrada» nº39 (pág.7), de 4 de Janeiro de 1947.

 

 

 

BAIRRADA - Alguns dos Seus Aspectos

por José Rodrigues


Extraído da Revista
Aqua Nativa Nº 13
Dezembro de 1997

 




 

 

 
 
 
 
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