Dezembro 1997 - Aqua Nativa nº 13 "Arquitectura Tradicional da Bairrada (Continuação)"
ARTIGOS

por Rui Miguel Rosmaninho
 
 
Arquitectura tradicional da Bairrada
(Continuação)
 
 
2. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO
Os materiais de construção usados na Bairrada não são exclusivos desta região, uma vez que também se empregam noutras partes do nosso país e, até, além fronteiras. O seu estudo revela-nos, porém, algumas particularidades no modo de os produzir e aplicar.
Neste ponto, é necessário salientar a importância dos depoimentos de várias pessoas que viveram directamente os afazeres da construção civil de outros tempos ou que, pelo menos os testemunharam. De uma forma simples e directa, essas pessoas deram-nos a conhecer o complicado processo de construção de uma casa à «antiga bairradina».
Neste capítulo vamos fazer uma abordagem aos materiais de construção usados na arquitectura tradicional da Bairrada. Para uma melhor compreensão deste assunto, são esboçadas algumas considerações preliminares sobre o solo e o clima da região.
 
2.1. O solo e o clima da Bairrada[1]
 
«Bairrada, terra de barro. Barro omnipresente, que lhe modelou as feições e lhe incutiu um viver “sui generis”. São as colinas baixas e onduladas; o solo que condiciona as práticas agrícolas, forneceu os materiais para as habitações ou as estremas das propriedades e a matéria-prima das oficinas dos oleiros, etc».
Boletim Aderav, nº16, Maio de 1987, Aveiro, pág.3.
 
A Bairrada é uma das sub-regiões que, com a Ribeira, a Ria e a Gândara, constitui a Beira Litoral.
Contudo, prevalece alguma imprecisão na definição dos seus limites geográficos, que variam de acordo com os critérios adoptados.
A Carta Geológica da Confraria dos Enófilos da Bairrada (fig. 1) mostra que o solo bairradino apresenta manchas geológicas em formas alongadas e de idade cada vez mais recente à medida que se afastam do maciço interior, mais antigo. De acordo com António Chambel (1987), a região «Terá sido, portanto, uma antiga zona marítima pouco a pouco preenchida e agora emersa».
A região bairradina caracteriza-se pela variedade de terrenos quase exclusivamente sedimentares, sobretudo calcários, que fornecem matéria-prima para cimento e cal e, ainda, excelente material de construção, de que é bom exemplo a «pedra de Ançã».
A diversidade geológica patente na Bairrada origina uma grande diversidade de solos (fig.2). Como consequência disso, assiste-se à proliferação de variadas culturas agrícolas, assim como à extracção de diferentes matérias-primas.
 
 
Em termos climáticos, a Bairrada é uma região moderada, de feição mediterrânica, onde os invernos são suaves e os verões não muito quentes.
Estas características são próprias da zona de transição, onde se misturam influências atlânticas e mediterrânicas, apesar destas últimas sobressaírem.
A influência mediterrânica está bem patente no diagrama termopluviométrico (fig. 3), cuja curva de pluviosidade revela fracos valores nos meses de Julho e Agosto, em oposição às temperaturas mais elevadas.
 
 
O conhecimento das variações climáticas da região é extremamente importante para a produção e secagem dos adobes, e será objecto de desenvolvimento ainda neste capítulo.
 
2.2 A pedra[2]
Nos solos bairradinos abunda a pedra calcária que, para além de constituir um excelente material de construção, fornece matéria-prima para a cal e, mais recentemente, para o fabrico do cimento.
Como material de construção, a pedra aplicava-se em bruto em paredes, muros e nos alicerces das casas. Este não era, porém, o seu único fim. Alguma pedra era aplicada também na construção de estradas, partida por britadores. O mesmo destino se dava, geralmente, àquela que resistia à cozedura nos fornos de produção de cal.
Da pedra bairradina destaca-se a conhecida «pedra de Ançã», extraída na região sul do concelho de Cantanhede. Era comum aplicar-se esta pedra nas padieiras e umbrais das casas e, também, para emoldurar os portões, as portas e as janelas. Para além da função estética, a pedra de Ançã reforçava a solidez das molduras.
Esta pedra divide-se em dois tipos distintos e, contrariamente ao que o seu nome faz supor, é extraída em vários lugares: Portunhos e Vila Nova de Outil. De facto, foi baptizada com o nome «Ançã» devido à importância desta povoação, local de residência de famílias influentes na região.
Nas pedreiras de Portunhos[3] é extraída uma pedra muito macia, fácil de trabalhar e propícia à realização de molduras e rendilhados que exijam bons acabamentos, uma vez que permite o uso de lixas.
É tão mole que chega a ser cortada com uma serra de madeira.
A poucos quilómetros destas pedreiras localizam-se as de Vila Nova de Outil (fig. 4). Aqui extrai-se uma pedra também calcária mas com características um pouco diferentes das anteriores. É muito mais dura e resistente e, portanto, melhor para a construção civil. Devido a estas especificidades, os habitantes e operários de Vila Nova de Outil reivindicam uma diferenciação da sua pedra relativamente à de Portunhos.
Na casa bairradina, a pedra de Outil aplicava-se nas cantarias de portas, portões e janelas. Além disso, também marcava presença nas pias de azeite, pias do gado, lagares para pisar uvas, bancas para cozinhas, etc..
As pedreiras de Vila Nova de Outil começaram a ser exploradas no século XIX, mas foi já no século XX, entre 1930 e 1960, que essa exploração atingiu o apogeu, sendo a pedra comercializada e aplicada em vários pontos do país[4]. Por esta altura, os pinhais estavam povoads de fornos de cal e de mais de uma centena de pedreiras em actividade, nalgumas das quais chegavam a trabalhar sessenta homens.
Actualmente, as pedreiras de Vila Nova de Outil encontram-se inactivas, apesar de existirem casos pontuais de explorações em pequena escala, de cariz familiar. Os motivos deste descalabro no negócio da pedra relacionam-se, entre outros factores, com a emigração e com a concorrência das pedreiras de Fátima, tornada possível pelo incremento dos transportes rodoviários.
Os trabalhadores das pedreiras dividiam-se em duas classes distintas: os cabouqueiros e os canteiros (figs. 5 e 6). Os primeiros responsabilizavam-se pelo trabalho mais duro, «arrancando» a pedra das enormes bancadas[5] com o auxílio de pesadas marretas e de guilhos[6]. Os outros efectuavam um trabalho mais artístico, esculpindo a pedra e conferindo-lhe a forma final pretendida.
Um papel relevante era também desempenhado por mulheres e jovens que carregavam, em cestos-poceiros[7] ou canastras[8], a terra que envolvia a pedra.
Nestas pedreiras raramente se usava a pólvora, uma vez que a pedra é suficientemente macia para ser trabalhada e arrancada somente com a marreta e os guilhos.
De acordo com comunicação feita pelo senhor Adelino Póvoa Cruz, habitante de Vila Nova de Outil, artífice com muita experiência neste assunto, “o bom artista da pedra é aquele que começa por carregar terra nas pedreiras, depois faz serviço de cabouqueiro e finalmente de canteiro”. Terá de ser, portanto, uma pessoa bastante versátil e conhecedor profundo de todas as tarefas.
A pedra calcária da Bairrada, aparelhada para cantaria e aplicada em bruto na construção civil, também se destinava à produção de cal.
 
2.3 A cal[9]
 
A utilização da pedra calcária na produção de cal conheceu grande divulgação na Bairrada, originando a multiplicação estratégica de fornos de cal por todo o seu território. Este evento foi de tal maneira importante que a produção de cal constituiu, a par da agricultura, a principal actividade económica da região.
Um dos factores que contribuiu decisivamente para o fomento desta indústria foi a proliferação do uso do adobe na construção civil, material produzido a partir de cal e areia. Não existem fontes seguras que testemunhem com exactidão o início da actividade de produção de cal na Bairrada.
Sabe-se, contudo, que é uma indústria muito antiga nalguns concelhos da região, multissecular mesmo[10], que conheceu o seu apogeu no século passado e início deste, tomando um percurso descendente a partir da difusão dos novos materiais de proveniência industrial, tais como o tijolo de barro vermelho, o cimento, etc..
Actualmente os fornos de cal (utilizando processos artesanais) encontram-se em vias de extinção na Bairrada. Contudo, foi possível encontrar ainda alguns em funcionamento na zona de Cantanhede, geridos por pessoas que «teimam» em preservar uma tradição de família. O contacto directo com estes exemplos sobreviventes, assim como o testemunho de algumas pessoas idosas que outrora trabalharam neste ofício, permitem descrever, com alguma fidelidade, o ambiente que existia em torno da saga da produção de cal, anterior à implementação de processos industriais.
O primeiro passo para a produção de cal era dado nas pedreiras. A pedra era limpa e o barro[11] ou outro material que a envolvia era carregado em cestos-poceiros por mulheres e jovens para um local previamente destinado para este tipo de entulho. Depois procedia-se à extracção da pedra do solo, recorrendo-se muitas vezes ao uso de pólvora[12]. Os blocos resultantes eram deslocados com o auxílio de alavancas e partidos com marretas ou martelos. Somente depois de todo este trabalho a pedra estava em condições de entrar no forno.
O forno possuía planta circular com base mais larga que o topo. A parte inferior dispunha de uma espécie de degrau denominado «apoio da enforma» e a parte superior era aberta para permitir a saída dos fumos. As paredes eram construídas com blocos de barro amassado que formavam o chamado «pano do forno». A boca do forno, denominada «zangra» ou «zângora», era ladeada, na parte exterior, por um ou dois orifícios para guardar os haveres dos trabalhadores, nomeadamente alimentos (fig.7).
 
 
A pedra proveniente da pedreira era descarregada no exterior do forno, junto à abertura superior. Aí era seleccionada de acordo com o seu tamanho e atirada, à mão, para o interior. Nesta fase devia-se ter o cuidado de evitar a entrada de pedras que possuíssem alguma substância que resistisse à cozedura.
Isto porque no solo bairradino, exceptuando a zona sul do concelho de Cantanhede, existe uma pedra calcária que apresenta, por vezes, uma crosta endurecida e de cor mais escura. Estas partes, denominadas por «coscoro», deviam ser retiradas porque resistiam às elevadas temperaturas dos fornos (e depois estragariam os adobes).
O enchimento do forno efectuava-se em duas etapas: em primeiro lugar aplicavam-se as pedras de maior dimensão para fazer a «enforna», que consiste na construção de uma espécie de abóbada assente sobre o apoio inferior; depois acabava-se de encher com a restante pedra até à abertura superior, tendo o cuidado de pôr a mais miúda junto às paredes do forno para calçar melhor (fig. 8). O tempo necessário para fazer o enchimento dependia do número de trabalhadores intervenientes mas, em média, demorava cerca de meio dia (trabalho efectuado numa manhã ou numa tarde).
 
 
O calor era desenvolvido a partir do interior da abóbada da enforna, que possuía uma abertura voltada para a zangra do forno para permitir a alimentação do fogo[13]. Era uma abertura que resultava da aplicação de duas pedras inclinadas uma para a outra, fazendo com o chão a forma de um triângulo.
A pedra de enchimento que ficava à mostra na zangra era tapada com barro amassado para conservar o calor. Todavia, as elevadas temperaturas provocavam a abertura de fendas que eram constantemente tapadas com argamassa de cal e água (figs. 9 e 10).
 
 
O aquecimento inicial do forno era efectuado muito lentamente até a pedra ficar negra, preparando-a para suportar as elevadas temperaturas de fusão sem rebentar (fig. 11). Esta operação denomina-se «defumação da pedra»[14].
Depois verificavam-se mais três fases distintas na cozedura. A primeira culminava quando a pedra estava «em calda»[15], apresentando um tom vermelho vivo. Nesta fase o forneiro[16] teria cuidados acrescidos para evitar o aumento exagerado da temperatura, pois ainda havia o risco da pedra «rebentar». Na segunda fase tomava um aspecto mais amarelado, perdendo a viveza da cor anterior. O fogo era aumentado porque a amálgama de pedra recém-caldeada já podia suportar maiores temperaturas sem quaisquer problemas. A terceira e última fase de cozedura manifestava-se quando o fumo negro, característico das fases anteriores, dava lugar a um fumo branco que saía pela abertura superior do forno com menor intensidade. Isto significava que a pedra estava cozida e, a partir desse momento, o forneiro deixava de alimentar o fogo, esperando que o forno arrefecesse lentamente (o arrefecimento demorava cerca de um dia).
Durante a cozedura, o volume de pedra ia diminuindo progressivamente. A oscilação daqui resultante provocava o aparecimento à superfície de partes mais cozidas que outras. Quando isto acontecia, cobria-se a pedra em «brasa» para evitar que o calor se perdesse por aí. Usava-se então um fragueiro[17] para picar e espalhar a pedra menos cozida sobre as partes que apresentavam um estado mais avançado de cozedura. Em alternativa, atiravam-se umas pazadas de pedra. Este trabalho efectuava-se através da abertura superior do forno (fig. 12).
Para mexer a lenha e a serradura dentro do forno era usada uma vara de ferro com topo em forma de pá ou enxada. O cabo era muito comprido para evitar o excesso de calor e, por vezes, parcialmente em madeira.
Fazer uma «fornada»[18] demorava «três dias e três noites». Durante esse tempo os trabalhadores eram constantemente rendidos devido ao desgaste físico provocado pelas altas temperaturas.
Após o arrefecimento do forno, a cal resultante era muitas vezes peneirada para eliminar alguma pedra que tivessem resistido à cozedura.
Na maior parte dos casos, os fornos faziam parte de edifícios que abrangiam também outros espaços, nomeadamente divisões para arrumos, compartimentos para escritórios e alpendres (fig. 13). O acesso à abertura superior do forno fazia-se por uma rampa, formada com o entulho das pedreiras ou então resultante do desnível do terreno, escolhido já em função deste aspecto.
 
 
Até às primeiras décadas do século XX era possível encontrar na Bairrada alguns fornos que possuíam infra-estruturas anexas onde se juntavam os homens responsáveis pelo transporte da pedra e da cal. Aí desaparelhavam os bois para lhes dar de comer, prendendo-os às próprias rodas dos carros. Muitas dessas abegoarias possuíam cobertura para resguardar bois e carros que, por virem de longe, ali tinham de passar uma noite antes de regressar.
O desenvolvimento da indústria da cal provocou aliás o florescimento do negócio dos transportes. Esta actividade era executada com o auxílio de carros de bois, propriedade de inúmeros lavradores que se denominavam carreiros ou carreteiros.
O transporte da pedra desde as pedreiras até aos fornos era feito por esses homens que, trabalhando por conta própria, eram pagos à «carrada»[19]. Assim, por cada carga de pedra para cal, os proprietários dos fornos pagavam a duas entidades diferentes: o transporte aos carreiros e a pedra aos proprietários das pedreiras. Era, no entanto, comum que os donos dos fornos arrendassem terrenos para exploração de pedra.
O negócio da cal prosperou na Bairrada até ao início deste século, chegando mesmo a ser comercializada para fora da região. A actividade dos carreiros era muito intensa, levando as cargas de cal, à semelhança das de adobe e de vinho até aos portos da Figueira da Foz ou da beira-ria de Aveiro. Nestes últimos eram embarcadas e seguiam para norte, nomeadamente para Ovar e Estarreja.
A cal foi largamente usada na Bairrada em diferentes actividades, desde a pecuária até à agricultura. Todavia, foi na construção civil que conheceu maior implementação, especialmente com a fabricação de adobes.
 
2.4 O adobe[20]
 
O adobe[21] é um tijolo cru, seco ao sol, produzido a partir de matérias-primas disponíveis na região: areia e cal. Foi muito usado na construção de casas antes da proliferação do tijolo de barro vermelho de produção industrial.
O fabrico de adobes exige, em primeiro lugar, o cálculo correcto das proporções de cal e de areia, que é tradicionalmente a seguinte: a cada metro cúbico de cal correspondem três metros cúbicos de areia.
Para medir a cal era usado um balde pequeno com pega, denominado «metro».
A areia possui uma tonalidade amarelada e é muito abundante na região, onde habitualmente se chama «saibro». Dela provém a tão característica cor final do adobe: o amarelo ocre.
A cal era geralmente comprada em pedra (cal viva). Na opinião de alguns dos nossos entrevistados, a cal hidráulica, além de mais dispendiosa, produzia adobes menos resistentes às intempéries e sujeitos a um apodrecimento mais rápido.
O transporte da cal e da areia, assim como o de todos os materiais de construção em geral, era sempre executado com o auxílio do principal veículo da época: o carro de bois.
Para fazer a argamassa dos adobes depositava-se no chão o monte de areia amarela, e sobre ela distribuía-se a cal. Como esta operação decorria ao ar livre, havia o cuidado de aproveitar a areia dos bordos para envolver a cal, protegendo-a assim do vento e criando um fosso apto a receber a água.
Em seguida, a cal era regada, iniciando um processo químico de fervura que demorava poucos segundos. Pretendia-se, com a libertação de calor, abrir os torrões ou pedras de cal.
Depois de arrefecer um pouco procedia-se à mistura com areia envolvente, usando a água sempre que necessário. Esta operação, denominada «engramassar a cal»[22] prosseguia até a mistura apresentar um aspecto homogéneo. A sua duração dependia directamente da quantidade de argamassa pretendida, assim como do número de pessoas intervenientes[23].
Finalizado o «engramassamento da cal», a argamassa repousava durante dois ou três dias para «rebentarem» os caroços de cal que tivessem eventualmente resistido. Caso contrário, poderiam inutilizar mais tarde o bloco de adobe. Durante este período, a argamassa era constantemente regada para que não secasse.
Após esse tempo de repouso a argamassa era amassada novamente com um pouco de água, de modo a obter uma mistura nem muito mole nem muito dura. Esta amálgama final, de cor amarelada, constitui a argamassa base para a fabricação do adobe.
O passo seguinte consistia em verter a argamassa numa forma denominada adobeiro (fig. 14).
 
 
O adobeiro, feito em madeira, com duas pegas laterais, era forrado interiormente com uma chapa de latão ou zinco para desenformar melhor o adobe. Com a mesma finalidade, os adobeiros sem forra eram previamente molhados com um farrapo, regados ou mesmo imersos num recipiente com água.
A forma era assente sobre o chão, numa superfície previamente nivelada com um ancinho, no sítio onde o bloco ficaria a secar. Por vezes usava-se areia ou terra para facilitar o alisamento, tapando alguns buracos incómodos.
Seguidamente, o interior do adobeiro era cheio com a argamassa anteriormente preparada. Para esta operação usava-se uma enxada ou uma colher de pedreiro, enquanto que para compor os cantos se usava um instrumento em madeira denominado «socador» ou «sóca» (fig. 15).
 
 
Depois de encher o adobeiro, alisava-se a superfície do adobe e só depois se procedia à sua desenformação. Muitas vezes, acrescentavam-se seixos rolados no interior do adobe para poupar na argamassa.
Este trabalho era muito duro uma vez que obrigava o trabalhador a permanecer constantemente curvado e a levantar pesos consideráveis.
Os adobes, depois de desenformados, ficavam a secar durante cerca de três dias. Findo esse tempo eram levantados e postos ao alto para facilitar a limpeza e a secagem da face que estava voltada para o chão, permanecendo nessa posição durante mais dois dias.
De seguida os blocos, ainda frescos, eram armazenados em pilhas de quatro ou cinco fiadas, com um pequeno espaço entre cada unidade para facilitar a ventilação, e assim ficavam a secar durante cerca de um mês. Somente no final deste longo período de secagem os blocos atingiam a solidez e a resistência que os caracterizam.
Os adobes apresentavam dois tamanhos estandardizados. Usavam-se sob a forma de paralelepípedos de 30 x 40 x 10 a 15 cm nas paredes das casas e de 20 x 40 x 10 a 12 cm nos muros de vedação, paredes de currais e outras dependências menores. Também eram fabricados adobes com forma ligeiramente arredondada, e que se destinava à construção de superfícies curvas, tais como a dos poços.
Em terras do leste bairradino tais como Canelas, Vale da Mó e Junqueira, era comum a construção de paredes com outro tipo de adobe, feito à base de barro. Isto deve-se à abundância deste material naquelas terras.
O processo de fabricação do adobe de barro é semelhante ao de areia e cal. O barro era misturado com água e amassado com o auxílio de pás, enxadas ou dos próprios pés. O enchimento do adobeiro efectuava-se em três fases: em primeiro lugar, era depositada uma camada da argamassa de barro; depois acrescentava-se um molho de palha e, por fim, acabava-se de encher a forma com outra camada de barro argamassado para ligar bem o bloco de adobe.
O uso de palha no fabrico de adobes constitui, ao que sabemos, uma das particularidades da Bairrada. A sua aplicação visava tornar mais leve o adobe, poupando argamassa e minimizando os custos. Além disso, facilitava o processo de secagem, uma vez que a palha absorvia muita água. Usavam-se sobretudo as palhas de trigo, centeio, cevada e aveia (popularmente designada por «avião»).
Este tipo de adobe conheceu pouca divulgação devido à sua fragilidade e pouca durabilidade, restringindo-se às casas térreas. Hoje, é extremamente difícil encontrar vestígios do adobe de barro porque desapareceram quase todas as casas com este tipo de material. Os adobes eram unidos com uma argamassa confeccionada da mesma maneira que a dos adobes, seguindo a proporção 1 (cal) Y 3 (areia) + água, que se usava para assentar e revestir tanto os adobes de cal e areia como os de barro.
Neste último caso, verificava-se um fenómeno que merece registo: a degradação ocorria mais rapidamente nos adobes do que na argamassa. Enquanto aqueles, parcialmente desfeitos, denotavam sinais claros de desgaste, a argamassa de ligação ainda prevalecia quase intacta e, por esse motivo, saliente relativamente ao bloco. Este fenómeno mostra que a argamassa de cal e areia é mais resistente e durável do que o barro.
Os adobes eram feitos em casa, pelos próprios donos da obra, ou eram comprados a comerciantes. A sua fabricação restringia-se aos meses de Julho e Agosto. São evidentes os motivos deste facto, uma vez que a secagem decorria no chão e a céu aberto, bastando uma pequena chuvada para estragar a frágil superfície de argamassa se esta ainda estivesse húmida. Muitos comerciantes aproveitavam estes dois meses para fabricar milhares de unidades, comercializando-as durante o resto do ano. Este facto concede ao bloco de adobe um carácter semi-industrial e padronizado.
A produção de adobes de cal foi um negócio próspero e rentável até meados do nosso século, o que levou à proliferação de estaleiros de produção na Bairrada. Por questões práticas e de rentabilização de tempo, o local de fabricação dos adobes era no próprio areeiro de onde se extraía a areia amarela, ou num terreno anexo.
O negócio de compra e venda de adobes era efectuado no próprio local de fabricação (nos areeiros), onde existia normalmente um espaço coberto para escritório e arrumos, ou então nas feiras e praças da Bairrada. A estas últimas deslocavam-se representantes dos fabricantes, chamados popularmente de «comissários», que tomavam nota da quantidade de adobes pretendida pelo cliente.
O grande número de fabricantes de adobes que existia na Bairrada levou à inevitável concorrência entre eles. Para divulgar os seus produtos, chegavam a fazer publicidade nos jornais da região. Um dos anúncios dizia o seguinte:
 
«Adobos
Previnem-se todas as pessoas que tenham construções para fazer, que demos nova baixa no preço dos adobos e, por isso, só tem prejuízo quem os faça ou compre, sem nos consultar sobre o preço que agora fazemos.
Sempre em depósito grande quantidade de adobos velhos da melhor qualidade.
Luciano Costa – Sangalhos»[24]
 
Contudo, a construção civil bairradina não provocou unicamente o desenvolvimento do negócio dos adobes e das actividades que lhe estão directamente ligadas (exploração de pedra e produção de cal). De facto, motivou também a exploração de madeira.
 
2.5 A madeira
 
A paisagem da Bairrada caracteriza-se pela abundância de florestas. Este facto reflectiu-se na arquitectura tradicional, onde a madeira possui um papel relevante.
O uso da madeira estendia-se por um vasto conjunto de componentes da casa, tanto a nível estrutural como decorativo, nomeadamente nas padieiras[25], na construção de paredes interiores, nas estruturas para suporte de telhados, nas forras dos tectos, nos rodapés dos compartimentos, nas escadas, nas portas e portões, nas caixilharias de janelas e suas portadas interiores, nos alizares de esquinas de paredes e vãos interiores, nos soalhos e nas estruturas de vigas, vigotas e pilares que os suportavam.
Nas padieiras era também usada a pedra. Contudo, por questões económicas, era mais vulgar o uso da madeira. Esta teria de possuir uma certa qualidade para não apanhar caruncho e apodrecer precocemente. As madeiras mais usadas para este efeito eram as de oliveira, freixo e lamegueiro (também conhecido por mosqueiro, negrilho ou ulmeiro). As padieiras eram tapadas com argamassa de cal e areia.
Para aliviar as padieiras em paredes de adobes fazia-se um archete[26] de adobes postos em cutelo ou colocavam-se dois adobes inclinados um para o outro, de modo a formarem com a horizontal um triângulo (fig. 16).
 
 
Nas paredes interiores, as fasquias e falheiros formavam um esqueleto estrutural capaz de segurar a argamassa. Esta estrutura também se encontra em paredes exteriores de algumas casas de encosta.
Por vezes usava-se a madeira nas molduras exteriores das aberturas dos alçados secundários. Na frontaria, contudo, eram de cantaria, reboco ou tijolo maciço.
É importante salientar, como veremos posteriormente, que a madeira marcava também presença através do mobiliário.
Até atingir a sua forma e função final, a madeira passava por várias fases de trabalho. Inicialmente, as árvores eram «abatidas» e o seu tronco limpo da ramagem. Depois eram serradas manualmente e transformadas em pranchas e tábuas. Este trabalho era quase sempre realizado na própria floresta[27] por trabalhadores denominados serradores. A madeira era seguidamente transportada em carros de bois até às oficinas dos carpinteiros ou directamente para a obra, sendo aqui trabalhadas por estes artífices. Neste caso, deslocava-se até ao local um «banco de carpinteiro», que é uma mesa de trabalho com torno incorporado e que, por vezes, possui uma caixa inferior fechada para guardar as ferramentas.
Era rara a família que não possuía pinhais ou terrenos com outro tipo de árvores. Por isso, sempre que pretendiam edificar uma casa era comum usarem a sua própria madeira, minimizando os custos de construção. Assim, só teriam de pagar a mão-de-obra dos serradores e carpinteiros.
No início do século XX surgiram as serrações mecânicas na Bairrada. Uma delas chamava-se «Thomás da Cruz e Filhos» e foi fundada em 1907 na actual vila da Pampilhosa. Todavia, a construção das casas tradicionais da região continuou durante largos anos a recorrer à madeira obtida por processos artesanais. O sucesso inicial da indústria madeireira deveu-se essencialmente à «exportação» para outros pontos do país e até além-fronteiras.
A nova era na exploração de madeira foi acompanhada pela difusão de materiais de construção de proveniência industrial.
 
2.6 Difusão de materiais de proveniência industrial: o tijolo e o cimento
 
A Bairrada sempre foi conhecida pelas suas riquezas naturais, sobretudo barro, pedra calcária e madeira. O desenvolvimento das vias de comunicação[28] a partir de meados do século XIX favoreceu a sua exploração, nomeadamente ao facilitar o escoamento dos produtos manufacturados.
Iniciou-se, assim, um período de profundas transformações económicas na região que se traduziram na fundação de grandes indústrias.
Um dos sectores que mais beneficiou com este desenvolvimento foi o cerâmico. Até então estes materiais eram fabricados segundo técnicas artesanais. Existiam na região vários fornos de tijolo e de telha caleira semelhantes aos fornos de cal[29]. Aliás, estes últimos eram muitas vezes usados para cozer peças cerâmicas. O desenvolvimento industrial do sector provocou o rápido desaparecimento dos fornos artesanais.
A primeira unidade fabril de barro vermelho foi instalada na Pampilhosa, em 1886, pelo industrial portuense António Almeida da Costa. Trata-se da “Fábrica Velha”, filial da “Companhia Cerâmica das Devezas, Lda.”, criada em Vila Nova de Gaia m 1965 ou 1966. O desenvolvimento da indústria cerâmica prosseguiu durante as primeiras décadas do século XX, com a instalação de novas unidades: “Mourão, Teixeira Lopes e C.ª Lda.” (1901), “Cerâmica Excelcior da Pampilhosa” (1903), “Magalhães e C.ª” (1921)[30]. No mesmo período, ou pouco depois, esta indústria instalou-se também noutros pontos da Bairrada, nomeadamente em Anadia, Oliveira do Bairro, Bustos, Avelãs de Cima, etc.
Uma das aplicações decorativas mais relevantes do tijolo de barro vermelho ocorria nas molduras exteriores de portas, portões, janelas, janelos e frestas. Há muito tempo que o tijolo maciço era usado para este efeito (como testemunham alguns exemplos de casas bairradinas do início do século XIX), mas foi com a era industrial que o seu uso alastrou. Prova disso são as casas das localidades mais próximas das indústrias cerâmicas, onde o número de molduras em tijolo ultrapassa geralmente as de cantaria e reboco (fig. 17).
 
 
Outros sectores económicos atraíram, igualmente, os empresários. Já no século XX surgiram, como vimos, as serrações mecânicas de madeira e apareceu a indústria do cimento[31].
Com a divulgação e proliferação de novos materiais, mais resistentes e de melhor relação custo-qualidade, iniciou-se um processo de declínio na produção e aplicação dos materiais usados até então, nomeadamente os adobes e a argamassa de cal e areia amarela.
Todavia, foi uma transição muito lenta. Inicialmente verificou-se a combinação dos novos materiais com os tradicionais. Existem ainda inúmeras casas rurais que testemunham este processo, apresentando paredes onde se misturam adobes com tijolos de barro vermelho ou onde estes últimos se encontram assentes ou revestidos com argamassa de cal e areia. O mesmo sucedeu com o cimento que, por razões meramente económicas, se restringiu às padieiras e bases de assentamento para vigas, substituindo desta forma a madeira. O seu elevado custo prolongou ainda durante muitos anos o uso da argamassa de cal e areia amarela, de produção fácil e barata.
Para finalizar este assunto, é importante salientar que a divulgação de materiais de proveniência industrial traduziu-se por alterações profundas na casa bairradina. Com efeito, a velha telha caleira foi substituída pela telha marselhesa e, mais tarde, pela lusa, enquanto que as características paredes de adobes caiadas de branco deram lugar a paredes de tijolo com argamassa de cimento e pintadas com tintas industriais. Mas a sua «descaracterização» resulta menos destas alterações do que da mudança cada vez mais acentuada dos hábitos e da estrutura sócio-económica da população.
 

 


[1] Na redacção deste assunto socorremo-nos sobretudo do artigo de António Manuel Fevereiro Chambel, “Bairrada: aspectos físicos”, Boletim Aderav, nº 16, Maio de 1987, Aveiro, pp. 4-7; e do Cadastro Vitícola da Região da Bairrada – Concelho de Anadia, Ministério da Agricultura, Pescas e Alimentação, Instituto da Vinha e do Vinho, Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral.
[2] Para a elaboração deste tema foi decisivo o contributo dado pelos seguintes testemunhos:
·         sr. Adelino Póvoa Cruz, nascido em 1928 na localidade de Vila Nova de Outil, onde reside actualmente. É descendente de uma família com tradições na arte da pedra. Possui um forno de produção da cal (já extinto) e é dono de várias pedreiras (actualmente inactivas).
·         Sr. Luís Mendes Baía, nascido no ano de 1910 em Vila Nova de Outil. Actualmente é o mais velho habitante desta localidade. Pertencente a uma família com tradições no ofício da pedra, dedicou toda a sua vida ao trabalho nas pedreiras. Possui um forno de cal (já extinto) e uma pedreira (actualmente inactiva).
·         Sr. António Maria Marques Saltão, nascido em 1916 e morador em Vila Nova de Outil. Sempre trabalhou na pedra e é um dos mais conceituados canteiros da região.
[3] A pedra macia extraída nas pedreiras de Portunhos (com especial destaque para a conhecida Pedreira D’El Rei) abasteceu durante séculos a cidade de Coimbra, permitindo a construção de vários monumentos notáveis, onde sobressaem as ornamentações.
[4] De acordo com a opinião dos entrevistados, o desenvolvimento das pedreiras de Vila Nova de Outil processou-se por fases. Apesar de existirem desde o século XIX, foi após o termo da 1ª Grande Guerra (1914-18) que assumiram um papel de destaque. A crise económica resultante deste conflito traduziu-se em pobreza e escassez de alimentos. As pessoas que resistiram à emigração para o Brasil e Estados Unidos da América foram obrigadas a recorrer à terra para sobreviver. A abundância de pedra no solo de Vila Nova de Outil cativou a sua exploração.
Nos anos 30 iniciou-se um período áureo para as pedreiras de Vila Nova de Outil, que se prolongou até aos anos 60. Esta nova fase deveu-se a um surto na construção civil, especialmente de edifícios de grandes dimensões. O ponto de partida foi dado com a obra de restauro do Palácio da Justiça de Coimbra, seguida pela construção do edifício dos Correios. Depois surgiram as obras um pouco por todo o lado, não só na região de Coimbra como também noutras partes do país.
Eis algumas das obras mais relevantes do século XX onde se aplicou a pedra de Vila Nova de Outil: na Bairrada destacam-se o Palace Hotel da Curia, a Piscina do Palace Hotel da Curia, a Adega Cooperativa da Mealhada e o Grande Hotel do Luso; em Águeda o Hospital Municipal, a Escola de Sargentos, a Escola Industrial e o Palácio da Justiça; na Figueira da Foz o edifício dos Correios e o Paredão que se estende até Buarcos junto à praia; em Coimbra o restauro do Palácio da Justiça, o edifício dos Correios, os edifícios das Faculdades de Letras e de Medicina e da Biblioteca Geral, o Monumento aos Heróis da 1ª Grande Guerra, a Igreja de S. José, a Escola de D. Maria I, a Escola do Magistério Primário (actual Escola Superior de Educação), o Estádio Municipal, a Maternidade Bissaya Barreto e a Igreja de Nª Sra. Da Serra (em Semide).
[5] Bancada é o nome dado a cada unidade maciça de pedra no seu estado natural, antes de se extrair do solo. Nas pedreiras de Vila Nova de Outil é possível extrair pedras com grandes comprimentos. Em Portunhos a pedra é mais macia e o tamanho dos blocos arrancados das bancadas é menor.
[6] O guilho é uma cunha de ferro para trabalhar na pedra. Na Bairrada é também conhecido por pinchote. Muitas vezes o trabalho não era correctamente efectuado e o guilho, com o impacto das marretas, acabava por pinchar. Pinchote é, portanto, uma derivação da palavra pincho, que significa saltar.
[7] Os cestos-poceiros, também designados por gigas, são cestos de verga entrançada com forma quadrada ou redonda.
[8] A canastra é uma cesta larga e baixa, feita de vergas ou fasquias de madeira, entrançadas.
[9] As fontes de informação mais relevantes sobre a produção de cal na Bairrada foram as seguintes:
·         Sr. Adelino Póvoa Cruz, já citado.
·         Sr. Manuel de Jesus Almeida, morador na localidade de Ventosa do Bairro, concelho da Mealhada. Foi proprietário de fornos de cal e da pedreira de Ventosa (já extinta), que era bastante conceituada na região devido à qualidade da sua cal.
·         Sr. José da Conceição, nascido no ano de 1910, mora actualmente no lugar de Tamengos, concelho de Anadia. Dedicou toda a sua vida à construção civil na Bairrada, trabalhando em áreas distintas como a extracção de pedra, a produção de cal, a fabricação de adobes e a construção civil.
[10] Os fornos de cal já possuíam certa importância no século XVII, como testemunha o Livro do Tombo da Vila de Cantanhede, do Exmº Marquês de Marialva, escrito pelo seu ouvidor, dr. Francisco de Figueiredo Pereira, em 1683. Nesta obra são referenciados não só fornos de cal como também fornos de telha caleira.
[11] Por vezes o barro resultante da limpeza da pedra era aproveitado para a agricultura, uma vez que reúne excelentes condições para a plantação de bacelos de vinha.
[12] Para aplicar pólvora abriam-se buracos nas bancadas de pedra. Esse trabalho era efectuado com brocas, usando-se água para as resfriar. Os buracos, depois de secos, eram cheios de pólvora e munidos de um rastilho. É tradicionalmente usada a expressão «mandar tiros» para denominar estas operações de rebentamento da pedra. Os proprietários das pedreiras nem sempre compravam pólvora fabricada industrialmente. Por motivos económicos muitos deles fabricavam artesanalmente a sua própria pólvora: em primeiro lugar eram queimadas faixas de vides; depois o carvão resultante era moído até ficar em pó; e, por fim, era misturado com enxofre.
[13] Para a alimentação do fogo nos fornos de cal era usada lenha, principalmente ramadas de pinheiro e eucalipto. Com o desenvolvimento da indústria madeireira, a partir de meados do século XIX, passou a usar-se com maior frequência a serradura.
[14] A duração da operaçãoo de «defumação da pedra» dependia da sua qualidade. A «pedra de Ançã» não necessitava de ser previamente defumada uma vez que a sua fraca rigidez permitia a cozedura sem perigo de rebentar. O mesmo não sucedia com a pedra abundante no restante solo bairradino, nomeadamente a extraída nas pedreiras de Ventosa do Bairro. Aqui os trabalhadores dos fornos eram obrigados a defumar a pedra na primeira noite, deixando o fogo consumir a lenha lentamente durante esse tempo, e iniciando a cozedura propriamente dita na manhã seguinte.
[15] Os bairradinos usam a expressão « pedra em calda» quando esta se encontra incandescente, em brasa. É nesta fase de cozedura que as pedras que enchem o forno entram em fusão, ligando-se entre si.
[16] Forneiro é o nome atribuído à pessoa que trabalha nos fornos.
[17] O fragueiro é uma vara de madeira, geralmente de pinheiro, usada para picar e espalhar a pedra dentro do forno, a partir da abertura superior. Depois de consumido parcialmente devido às elevadas temperaturas a que era submetido, era aproveitado também para mexer e empurrar a serradura ou lenha que ficava na boca do forno.
[18] Fornada é a quantidade de cal que o forno é capaz de produzir de uma só vez.
[19] Carrada é o termo popularmente usado para designar a quantidade (neste caso de pedra) que um carro pode transportar de uma só vez.
[20] Foram várias as pessoas entrevistadas acerca da fabricação e aplicação de adobes. Todavia, o maior contributo foi dado pelos seguintes informadores:
·         Sr. José da Conceição, já citado.
·         Sr. António Henriques, habitante da vila de Anadia e descendente de uma família com largas tradições na produção de adobes. Era proprietário de areeiros e de fornos para produção de cal. É considerado o último dos grandes adobeiros da Bairrada ainda vivo.
[21] Adobe, também designado adobo, tem origem no árabe «attob». Este facto leva a crer que foram os muçulmanos que introduziram esta técnica de construção entre nós.
[22] «Engramassar a cal» é a expressão usada correntemente pelos trabalhadores bairradinos. Contudo, alguns autores escrevem «argamassar a cal», nomeadamente Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano. No livro Arquitectura Tradicional Portuguesa, da autoria destes dois etnólogos (col. Portugal de Perto, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992, pág. 189), existe uma breve referência ao fabrico de adobes na povoação do Rolho (concelho da Mealhada)
[23] Esta tarefa provocava frequentes queimaduras nos pés dos trabalhadores mais descuidados, uma vez que era vulgar não usarem calçado. Até meados do presente século, as pessoas de menores recursos andavam habitualmente descalças ou, na melhor das hipóteses, com umas chancas, espécie de tamanco com planta de madeira. Os sapatos estavam frequentemente reservados para o domingo.
[24] Anúncio publicitário extraído do jornal A Ideia Livre, Anadia, ano XI, nº554, sábado, 27 de Maio 1939, pág.5.
[25] A padieira é a verga superior de uma janela ou porta. Na Bairrada é popularmente designada por padial.
[26] O archete é uma verga superior de porta ou janela, em arco.
[27] No Inverno era costume levarem-se os rolos de árvore para oficinas cobertas, geralmente alpendres, onde os serradores podiam trabalhar em melhores condições.
[28] O desenvolvimento das vias de comunicação deveu-se não só à melhoria e abertura de novas estradas como também à construção do caminho de ferro. Este último foi decisivo para o fomento da industrialização na região, uma vez que funcionou como pólo de fixação das primeiras grandes empresas. O primeiro troço a ser construído foi o de Lisboa-Porto, logo seguido da linha da Beira Alta e da linha Pampilhosa-Figueira da Foz.
[29] Os fornos para cozer telha caleira e tijolos eram muito semelhantes aos de produção de cal, mas de menores dimensões. As suas paredes eram construídas com blocos de barro amassado, formando uma secção circular com base mais larga que o topo. Possuíam uma boca lateral para alimentação do fogo e uma abertura superior por onde saíam os fumos e que era fechada com uma tampa de latão durante a cozedura.
[30] Dados obtidos do livro Pampilhosa, Oito Séculos de História, estudo realizado por Maria Alegria Fernandes Marques tendo por base a conferência proferida na sessão solene das comemorações da elevação da Pampilhosa a vila, em 20 de Outubro de 1985 (Centro de História da Sociedade e da Cultura da Universidade de Coimbra, 1986, pp. 26-28) e José M. Amado Mendes, “Cerâmica e património industrial. O caso da Pampilhosa”, Pampilhosa. Uma Terra e um Povo, Pampilhosa, nº10, Junho de 1991, pp. 59-76.
[31] A indústria de produção de cimento foi implantada em Souselas, junto à linha férrea. Esta localidade, pertencente ao distrito de Coimbra, aparece dentro dos limites do território bairradino na «Carta Vitícola da Bairrada», elaborada em 1985 por António Francisco Matos Martins Ferreira. Contudo, existem outros autores que a consideram exterior à região, nomeadamente Jorge Gaspar. Seja como for, a indústria do cimento de Souselas interferiu na arquitectura tradicional da Bairrada.

 



 

Extraído da Revista
Aqua Nativa Nº 13
Dezembro de 1997

 

Nota: Dada a má qualidade das fotos da fig. 1, 4, 5, 6, 10, 11 e 12 não nos foi possível inseri-las.

Desde já o nosso pedido de desculpas.


 

 

 
 
 
 
número de visitantes: 664397