Dezembro 1999 - Aqua Nativa nº 17 "O leitão assado e a Cultura Bairradina - O porco, animal doméstico"
ARTIGOS

O leitão assado e a Cultura Bairradina

 

O porco, animal doméstico

 

O porco desempenhava, assim, na região bairradina, o principal meio de fornecimento de carne para o consumo doméstico.  Por isso, para além da necessidade de criar e matar um porco bem grande, constituía também motivo de orgulho e vaidade não só o tamanho do porco abatido anualmente, como o número de porcos consumidos, porque tudo isso significava abastança.  O porco, pela proximidade com que era tratado assumia (e ainda assume) várias designações, algumas bem carinhosas, algumas trazidas de outras paragens – cerdo, cochino, gruim (termo importado do Brasil, ao que supomos), grulha, grunho, marrancho, marreco ou reco, suino e, também, nesta província da Beira, a estranha designação de pato. Quem regressava do nordeste brasileiro, também lhe chamava, tal como lá, cabeça-baixa, vá-se lá saber porquê.  

Havia quem lhes entendesse as vozes – o porco, tanto arruava, como grunhia ou roncava, mas nessa diversidade se lhe entendiam os “sentimentos”;  já o leitão, na sua voz mais juvenil, bacorejava ou bacorinhava, coinchava ou cuinhava, normalmente em busca do leite materno..

Na pocilga – a habitação dos porcos, que muita gente julga lugar imundo, embora os porcos sejam animais, ao contrário do que geralmente se supõe, muito sensíveis às deficiências da higiene do local onde estão circunscritos - as porcas parideiras tinham tratamento especial, quer na quantidade, como na qualidade da alimentação recebida: eram-lhes destinadas as melhores abóboras porqueiras e o mais avantajado balde de lavagem ( os restos inaproveitáveis, para a vez seguinte, das refeições da família e da lavagem da gordura das panelas e pratos); o porco lavajão era aquele que comia muito e que, por isso melhor engordava – a cujo balde de lavagem se misturavam uns punhados de farelo, que a casa também produzia, para engrossar a lavadura; já o porco que comia pouco ou não engordava facilmente era conhecido por chamiço, enquanto a sua equivalente feminina era conhecida por galdrapa a que, em Trás-os-Montes se chamava de laraita (eis a razão de algumas alcunhas).  Ao porco de cobrição, que fazia parceria com a porca parideira, na época de cio desta,  competia um especial papel na reprodução. 

A chega do porco fazia-se quando as fêmeas se apresentavam aluadas, isto é, na época do cio.  A posse de um porco de cobrição – o varrão, varrasco, ou, para os que na região trocavam os ves pelos bês, barrão, barrasco ou berrão, ou, ainda, cachaço e inteiro, por ser porco não castrado ou capado - era, para quem o possuía, uma acrescida fonte de rendimento, uma vez que cada chega, nas porcas da vizinhança tinha um preço.  Os porcos de cobrição faziam autênticos périplos pelas pocilgas das redondezas, conduzidos pelos seus donos (em geral, era uma mulher), percorrendo, por vezes, muitos quilómetros, amarrados por uma corda a uma das patas traseiras.  A condutora, trazendo na mão uma cesta confeccionada com tiras de madeira fina, chocalhava junto do focinho do porco alguns punhados de grãos de milho, levando-o, assim, ao engano, pelos caminhos a percorrer.  A condução era acompanhada da emissão de sons monótonos de incitamento para andar, do tipo: shut... shut... repetidos até à exaustão.

Os machos que não eram destinados à função de reprodução eram capados ou castrados, através da ablação de uma parte dos órgãos reprodutores, tarefa que implicava conhecimentos específicos e era realizada por especialistas que tomavam a designação de capadores.  Havia, por essa época, muitos especialistas na matéria.  A par destes, ou exercendo, simultaneamente, ambas as funções, havia os alveitares, espécie de veterinários não diplomados ou simples curiosos que assistiam nas doenças dos animais.  O capador mal treinado ou  falho de destreza, que retirava apenas um testículo ou deixava o animal mal castrado, não raro, dava origem a roncolhos ou monorquios, uma espécie de eunucos da raça porcina, cuja carne era havida por ser de inferior qualidade.

 A morte de um porco, por doença era, sempre, motivo de consternação, especialmente pelo prejuízo económico que representava.  Mas, ainda assim, os seus restos não se tornavam completamente inúteis.  Para além de poderem a vir ser desenterrados por ciganos, para serem consumidos, o que constituía fonte de preocupação sanitária, a pele era-lhes, muitas vezes retirada, mandada curtir e com ela confeccionados os mais variados objectos, desde botas e sapatos, a malas e sacos de couro.  Aliás, estes objectos em pele de porco eram especialmente apreciados pelas classes ditas altas.  Mas não era este o destino normal da pele do porco, quando não morria por doença, com a qual iam ser confeccionados os saborosíssimos coiratos.

Aos porcos fossões, a que se associava a ideia de que, por causa disso, tinham dificuldades na engorda, era-lhes colocado no focinho uma arame de ferro ou de cobre, chamado vinco, que o impedia de fossar na terra.  Os porcos jovens destinados à engorda ou à ceva (daí a designação frequente de cevados) eram, frequentemente, designados por  varrasquetes, em regra capados, talvez por oposição aos varrascos (com funções reprodutoras) que, no Algarve eram conhecidos por birres.

Como se vê - cada uma destas designações pressupõe um mundo de vivências -  desenvolvia-se em torno do porco criado na casa rural bairradina toda uma actividade e conjunto de rituais que o tornavam um elemento da maior importância na Cultura Popular da Região.  O porco, além de uma boa fonte de rendimento, constituía, também, uma peça essencial do Folclore.  Por alguma razão se tenta, hoje, reavivar, aqui e ali, alguns dos aspectos ligados à criação do porco, de que a “festa” da matança é a mais frequente.


 

Nota 1: São muito escassas as fontes escritas sobre esta matéria. Por isso, uma boa parte do que deixamos dito fica a dever-se a inúmeras entrevistas pessoais que tivemos o ensejo de fazer a mais de uma dezenas de bairradinos.

Nota 2 – O presente trabalho foi primitivamente publicado na Revista de Cultura da Bairrada “Aqua nativa”, (nº 17, de Dezembro de 1999), que se edita em Anadia, pela Associação Cultural de Anadia.

 Carlos Alegre
 

 


Extraído da Revista
Aqua Nativa Nº 17
Dezembro de 1999


 

 

 
 
 
 
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